sábado, 31 de março de 2018

Falando Palavrão

Existem algumas coisas que me tiram do sério. De me deixar muito revoltado mesmo. Uma delas é a hipocrisia, principalmente quando vemos situações semelhantes acontecendo e a reação da sociedade de uma forma geral é diferente em cada caso. Poderia até chamar de injustiça, mas no final fica bem visível que na maioria das vezes é por conta de uma postura hipócrita mesmo, em que o conceito de certo e errado não depende do ato em si, mas de quem o praticou e/ou recebeu.

O que me motivou a falar disso foi uma notícia que vi outro dia. Que não apenas mostra a hipocrisia em todo o seu esplendor, mas destaca como que a sociedade atual, tomada pelos ideais politicamente corretos, está ficando muito chata.


Nessa notícia, que pode ser vista aqui, falou-se a respeito da apresentadora de telejornal Lívia Zanolini, que atua em uma emissora local da Globo em Minas Gerais. Ela entrou em evidência pois havia vazado um vídeo dela, gravado nos bastidores do estúdio antes do jornal, em que ela falou alguns palavrões. 

São dois momentos, primeiro ela parece estar ali só na frente da tela. Provavelmente nessa hora alguém ligou o ar condicionado, e ela então exclamou "Agora o trem gelou aqui, p&%@ que pariu!". E depois, no que parecia ser a gravação da chamada que é mostrada durante a programação, ela se enrola ao ler o texto, e reclama com um "Desculpa gente, eu não tinha lembrado qual era o primeiro assunto, faz tempo que eu fiz essa bu$&#@...”.

O vídeo pode ser visto aqui abaixo.


Enfim... a emissora a afastou por uma semana, e depois ela voltou como se nada tivesse acontecido.

Claro que esse não veio a ser um caso de repercussão tão estrondosa, mas houveram sim vários comentários nas redes sociais. Diria que metade apenas achando graça mesmo, enquanto que a outra metade criticando a apresentadora, dizendo que ela merecia ser demitida, que era um absurdo ela estar falando palavrões, que era falta de educação, e mimimi...

Como assim absurdo, pôrra? Vai se fuder, cacete! Bando de filho da puta falando um monte de merda! Olha aqui pra vocês!


A grande maioria das pessoas fala palavrão, não tem nada demais. Claro que é necessário um mínimo de decência e bom senso, não é em qualquer hora e lugar que podemos soltar um palavrão. Tipo, chegar lá no meio de uma reunião com um cliente e chamá-lo de "viado", ou falar um "puta que pariu" na frente de uma criança, ou na transmissão de um telejornal soltar um "merda".

Embora, pra demonizar o Donald Trump, não há nenhum tipo de cerimônia em se falar a palavra "merda" em rede nacional...


Um breve comentário: pelo instante 45 segundos, você começa a escutar as perguntas de uma jornalista, que em um momento faz um questionamento que eu acho no mínimo ofensivo: "Senhor Presidente, você é racista?".

Na boa... Aposto que a repórter deve ser negra e da CNN... Sei que muita gente lá nos Estados Unidos odeia o Trump, mas chegar ao ponto de numa coletiva, na cara dura, e perguntar se ele era racista... Me desculpe, mas eu acho que isso sim é falta de educação. É aquela pergunta que não tem resposta certa, que é feita apenas pra denegrir a imagem do entrevistado: se ele desse de responder "sim", iam chover críticas, iam dizer que ele admite que é racista e por isso deveria ser deposto; se ele respondesse "não", iam chover críticas, iam dizer que ele estava mentindo e por isso deveria ser deposto. Ele fez bem em ignorar... afinal, mesmo sem dizer nada já iam chover críticas, e pediriam pra ele ser deposto.

Voltando...

No caso da jornalista do MGTV, o que se percebe é que ela estava ali sem dúvida em um momento de descontração, se preparando para iniciar o jornal. Do jeito que as pessoas se revoltam, é como se ela estivesse fazendo uma matéria ao vivo num jardim de infância e tivesse falado um "puta que pariu". Mas não... Nem ao vivo ela estava, tava no estúdio se preparando, tranquila entre colegas de trabalho, com o mesmo nível de informalidade e descontração de quando vamos pegar um cafézinho ou jogar conversa fora no bebedouro.


Mas aí alguém vazou o vídeo. Pior que esse aí nem foi vídeo de celular, pela qualidade da gravação (sem tremedeiras e bem enquadrada), provavelmente ele foi registrado pelas câmeras usadas no telejornal. Até o momento não apareceu o responsável por divulgar esse vídeo.

Aí eu comecei a pensar no seguinte...

Embora a repercussão do caso tenha sido relativamente mais discreta que outras gafes televisivas (tipo, caso William Waack), muitas pessoas condenaram a postura supostamente "pouco profissional" da jornalista. Ler os comentários na página acima e em outros lugares é uma grande diversão, pois vemos como tem puritanos que ficaram extremamente revoltados.


Mais uma vez, é um exemplo da hipocrisia. Repito, a maioria das pessoas fala palavrão, podem até ter aqueles que dizem que são "educados" e não falam palavrão (e que muito provavelmente estão mentindo). Embora na minha opinião educação vai muito além disso, a começar por respeitar a opinião alheia. Agora, o que acontece é que existem situações onde esses mesmos revoltadinhos aí relevam o uso de palavrões, acham que não é problema. 

Tipo, será que os caríssimos Gilberto Pinheiro e Ramiro Alves, assim como tantos outros que estão criticando a jornalista, iriam se revoltar com um cartaz desses?


Aí não tem problema, né? A jornalista dizer um "puta que pariu" em um momento privado de descontração é falta de educação, ela tem que ser demitida. Agora, uma cidadã em público, pra todo mundo ver, segurando um cartaz dizendo que é "uma puta mulher bem resolvida"... ah, aí é lindo! Pois é na Marcha das Vadias, é em defesa do feminismo, aí é só aplausos.

Sugiro então que as feministas comecem a fazer cartazes escrevendo "minha bu$&#@, minhas regras", quero ver o que a patrulha politicamente correta vai dizer... Quero ver se alguém vai criticar o uso de palavras chulas...

Perceba que eu grifei ali em cima o "privado" e o "em público", pois esse é outro ponto que eu acho que devemos observar bem. Repito, a Lívia não estava apresentando o telejornal. Ali foi um momento de descontração fora das telas, algo que podemos considerar sim como um momento privado, entre os demais colegas de trabalho (incluindo um que não é tão colega assim e vazou o vídeo). Mais uma vez faço a comparação, é como se você estivesse do lado do bebedouro batendo papo com seus colegas de escritório, é como se você estivesse jogando conversa fora com um colega enquanto esperam o elevador no saguão do prédio. 

No caso da jornalista, era um momento ali que não era público. Se tornou público pois o vídeo foi vazado, sem a sua autorização e sem o seu conhecimento.

Aí é de novo a velha e boa hipocrisia. Digo isso pois hoje vivemos em uma era em que a vida privada de alguém pode ser facilmente exposta para todo mundo. Isso acontece com o nosso consentimento, quando colocamos tudo lá no "Feice" e no "Insta", incluindo momentos e informações que são particulares... e também aqueles que são extremamente vergonhosos.


Melhor de tudo são os comentários...

Mas isso também acontece sem o nosso consentimento. Vai desde os dados pessoais que os bancos compartilham entre si até os vídeos e fotos que são roubados e expostos na Internet. São informações, fotos, vídeos, opiniões e momentos que são íntimos, que são particulares, e que dizem respeito àquela pessoa ou a um grupo restrito. Tipo, o nude que a garota apaixonada tirou é da conta dela e do namorado, as fotos da festinha de aniversário da filha são privadas para a família...

Acontece que a interpretação sobre o que é privado e público varia muito... Pior que não é uma linha tênue que separa um do outro, não é como se houvessem pequenas sutilezas que discriminam um vídeo como particular e proibido de ser compartilhado de outro vídeo que tenha que vir a público e os seus participantes sejam julgados pela sociedade. Na verdade, é uma linha móvel, que se ajusta de acordo com o interesse da sociedade politicamente correta naquele dado momento.

Pra demonstrar esse tipo de hipocrisia, vamos considerar os seguintes episódios, além do vídeo dos palavrões da Lívia.

Teve um vídeo que a Jandira Feghali estava gravando pra falar da "luta" do Lula contra a corrupção, e no fundo vemos ele conversando com a Dilma, e podemos perceber logo no início que ele sugere que "eles enfiem no cu todo esse processo", em uma clara alusão à Lava Jato.


Outro episódio que cito é o "The Fappening", em que fotos e vídeos íntimos de celebridades, como a atriz Jennifer Lawrence e muitas outras foram vazados na grande rede. Alguns bem picantes. Aliás, algo que podemos até trazer para a nossa realidade brasileira, com as fotos vazadas da Carolina Dieckmann.


Coloco também o episódio do William Waack, com o comentário "é coisa de preto" gravado antes da matéria de forma semelhante à jornalista, e que foi vazado.


Pois muito bem...

Todos os quatro episódios compartilham semelhanças. Por exemplo, refletem momentos que não eram públicos: Lívia não estava ao vivo no jornal, Jennifer Lawrence não estava na tela de cinema, Lula não estava em um programa eleitoral e William Waack não estava apresentando a entrevista.

Também foram vídeos que se tornaram públicos sem um certo consentimento dos seus "atores". Aqui, é certo de que a atriz de Hollywood teve as suas fotos e vídeos íntimos roubados por hackers que invadiram a nuvem da Apple. William Waack também não soube da publicação do vídeo, até começarem a chover as críticas. Sobre a jornalista Lívia Zanolini, ainda não tivemos nenhum pronunciamento oficial, mas imagino que ela tampouco teve conhecimento do vazamento dos vídeos até surgir na rede. Sobre Lula... bom, esse é um caso mais peculiar, diria que foi muito mais uma burrada da Jandira que nem se deu conta do "chefe" estar lá xingando. Mas podemos dizer que também, Lula não sabia de nada sobre o vídeo dele xingando ter caído na rede. 

Pelo menos isso ele pode dizer que não sabia...


Outra coisa que eles de certa forma compartilham é uma atitude que podemos definir como não-puritana. O "puta que pariu" de Lívia, o "enfiem no cu" de Lula, sob uma ótica de educação ambos são xingamentos. Jennifer Lawrence não xingou... mas se os defensores da moral e bons costumes acham errado um palavrão, também devem dizer o mesmo de fotos eróticas. Por fim, o de William Waack também pode ser visto como um xingamento... embora é evidente que seja levado para o lado do racismo.

Bom, só pra apimentar... coloco esse vídeo do Lula, pra mostrar algo semelhante, que será bom para a comparação. Nesse vídeo, que diferente dos demais parece ser algo público, ele diz que Pelotas é exportadora de viado.


Ok, podemos ver que sim, são situações parecidas, apesar de pequenas peculiaridades. De uma forma geral, uma determinada pessoa fez ou disse algo que a sociedade considera como reprovável em um momento privado e pessoal, mas que por conta de um vazamento não-autorizado se tornou público.

E como foram as reações?

Lívia Zanolini foi temporariamente afastada de seu trabalho, e recebeu críticas por sua conduta. Disseram que foi falta de educação da parte dela falar aqueles palavrões, que ela não é profissional. O cara que vazou, nem sabem quem é ainda, mas provavelmente vai ficar por isso mesmo.

William Waack foi demitido da Globo, recebeu duras críticas por sua conduta, foi chamado de racista, pediram até a prisão dele. Virou um pária aos olhos da sociedade. Por sua vez, o sujeito que vazou foi aplaudido, pois defendeu a honra dos negros. A ação de vazar o vídeo foi considerada como acertada.

Jennifer Lawrence foi vista como vítima. Tirar fotos íntimas foi considerado como um direito dela, o velho "meu corpo minhas regras", ela tem a liberdade de fazer o que quiser em seu momento de privacidade. Quem vazou as fotos, ou mesmo quem somente as viu, é um criminoso misógino que merece ser preso. A ação de vazar o vídeo foi considerada como errada.

Lula... bom, nem se fala... É considerado acima da lei, não teve problema ele mandar enfiarem o processo da Lava Jato no cu, não teve problema ele chamar Pelotas como exportadora de viado. Jandira veio dizer que ele estava em um momento privado, e por isso seus comentários deveriam ser relevados. Ninguém falou de falta de educação, de falta de respeito com a Justiça em uma ação contra a corrupção, de preconceito contra os homossexuais. E quem vazou e divulgou esse vídeo faz parte da elite golpista que é contra a democracia, está espalhando "fake news".

Sou só eu que acho que as reações foram muito diferentes?


Para Jennifer Lawrence e Lula, o momento privado precisava ser respeitado, a invasão de privacidade foi questionada; porém, a interpretação foi diferente nos casos de Lívia e William Waack. Por algum motivo, a privacidade deles pode ser invadida sem problemas.

Falta de educação ao dizer palavrões, desses casos que mencionei apenas a jornalista mineira foi considerada como mal-educada. Lula, mandando enfiarem o processo no cu... ninguém achou falta de educação e de respeito. Lívia não tem educação para ser jornalista, mas Lula parece ter educação pra ser presidente de uma nação.

Sobre preconceito, somente William Waack foi crucificado, perdeu o emprego e foi execrado pela sociedade, sem sequer direito a se defender. Lula, com uma fala também preconceituosa (que pode ser colocada junto com outras tantas que ele já disse), ninguém condena.

Bom... não condenar o Lula parece ter se tornado muito comum hoje em dia...


Entendeu o meu ponto? São interpretações completamente distintas para casos semelhantes. Por que a privacidade digital de uma pessoa deve ser obrigatoriamente respeitada em alguns casos, enquanto que em outros não? Por que atitudes consideradas como desrespeitosas, tipo um xingamento, são toleradas em algumas situações e criticadas em outras? Por que o preconceito deve ser combatido em algumas situações mas é desprezado em outras?

"Ah, mas Lula estava lá em uma ligação particular...". E os jornalistas da Globo, não estavam também em um momento particular?

"Ah, mas as fotos da Jennifer Lawrence foram vazadas sem o consentimento dela...". Mas, e os vídeos do William Waack e da Lívia Zanolini, caíram na rede com a benção deles?

"Ah, mas o William Waack promoveu racismo em seu comentário?". Me diga, Lula dizer que Pelotas é exportadora de viado não tem nada de preconceito?

Depois dizem que não existe indignação seletiva...

Por isso que as pessoas perdem a razão... Repito, aqui em nossa sociedade moderna, o que define o crime não é o crime em si, mas quem o cometeu ou foi vítima do mesmo. Depende de que lado você está. Quando a pessoa está do lado "certo", do lado politicamente correto... pode fazer o que quiser, que sempre se arruma uma justificativa, vão arrumar alguma desculpa. Do contrário, se não está com os politicamente corretos, qualquer mijadinha fora do penico é suficiente para que as críticas desabem que nem uma tempestade.

Felizmente as críticas contra a jornalista não estão sendo muito severas, pelo menos por enquanto. Espero que a patrulha do politicamente correto pare de encher o saco, com esse mimimi por qualquer coisinha. Respeitem ali a privacidade moça, que estava em seu momento de descontração e relaxamento antes de apresentar o jornal. Da mesma forma que vocês pedem para respeitarmos a privacidade das atrizes que tiram fotos íntimas. E deixem que ela fale os palavrões que quiser nesses momentos, da mesma forma que vocês toleram que outros façam. Ou ao menos sejam coerentes em seu discurso, condenando todo e qualquer palavrão dito por qualquer pessoa, e não apenas quando são ditos por aqueles com quem vocês têm antipatia...

Pôrra!

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