sábado, 23 de setembro de 2017

Cura Gay?

É impressionante como está aparecendo assunto polêmico aos montes! Está até difícil acompanhar esse monte de coisas que estão surgindo, por conta da sempre curiosa sociedade politicamente correta. E eu venho aqui pra falar sobre mais um assunto polêmico, tentarei ser breve...

O pior de tudo é o "deep penetrating pain relief"...

Tudo começou com uma decisão de um juiz do Distrito Federal, em que ele optou por permitir que psicólogos tratem de pessoas que busquem algum tipo de tratamento relativo à sua própria orientação sexual. Tal decisão estava indo contra uma norma estabelecida pelo Conselho Federal de Psicologia, que impedia que um profissional do ramo praticar qualquer ação que pudesse ser entendida como se estivesse classificando o homossexualismo como doença. Em outras palavras, uma norma que dizia que um psicólogo fica proibido de apresentar uma "cura gay" para um paciente, sob o risco de ser punido.

Em sua liminar, o juiz tentou "abrandar" a severidade dessa norma, não necessariamente cancelando-a. Mas determinando que ela não pode ser algo que impeça o profissional, em condições controladas e cabíveis segundo o definido pelo próprio Conselho, de oferecer uma terapia do tipo para aqueles que assim queiram.

Pronto. Aí a sociedade veio abaixo. As manchetes dos grandes meios de comunicação começaram a gritar "juiz permite que homossexualidade seja tratada como doença", e logo em seguida a ala politicamente correta começou a espernear, dizendo que o juiz estava querendo liberar a "cura gay". Começaram as declarações, artistas da "Grobo" declamando seu repúdio, ONGs pedindo a cabeça do juiz e a turminha "do bem" escrevendo textão e colocando a manjada fotinho com arco-íris no perfil do "Feice".


Pois muito bem, lá vamos nós de novo...

Me dei ao trabalho de buscar a liminar do juiz. Não tenho o costume de colocar anexos, na verdade teria que ver uma forma de colocar aqui em algum lugar, mas por hora apontarei para esse link aqui, que encontrei neste site. Mas vou reproduzir aqui alguns trechos.

A liminar foi fruto de uma audiência solicitada por uma psicóloga, que buscava a suspensão das punições aos profissionais que estivessem avaliando alguma questão associada à orientação sexual. Como diz no documento, a psicóloga e outros companheiros de profissão "alegam, em síntese, que a citada resolução, como verdadeiro ato de censura, impede os psicólogos de desenvolver estudos, atendimentos e pesquisas cientificas acerca dos comportamentos ou práticas homoeróticas, constituindo-se, assim, em um ato lesivo ao patrimônio cultural e científico do País, na medida em que restringe a liberdade de pesquisa científica assegurada a todos os psicólogos pela Constituição, em seu art. 5°, IX.".

Veja aqui uma coisa interessante... Censura é realmente um termo pesado, mas eu não duvido que seja algo que tais psicólogos deveriam sofrer, ao estudar algo relacionado ao homossexualismo. Quer dizer que o sujeito não pode atender nenhum paciente que tenha alguma questão relacionada ao homossexualismo? Na cabeça do politicamente correto, parece que sim. Aí, a censura pode. 


Por outro lado, quando um certo banco decide encerrar uma certa exposição que tratava de forma explícita um certo tema, por conta da repercussão negativa e constantes críticas da sociedade de bem... aí é quando a censura (que não ocorreu) magicamente se torna algo reprovável, né?

Ou seja: na cabeça da esquerda e do politicamente correto, a censura só é errada quando é contra algo que eles defendem e acreditam. Censurar os outros, não tem problema. É a censura "do bem".

Continuando. Seguindo a liminar, o juiz estabeleceu algumas premissas que deveriam ser respeitadas durante o desenvolvimento de seu texto. Presta atenção nesse trecho, pois aqui começa a desmoronar a idéia defendida pelos bundinhas politicamente corretos, em especial os dois primeiros pontos. Mantive os grifos da liminar, colocados pelo juiz.

"Esclarecidas as questões postas em Juízo e com base nas informações adicionais ora colhidas em audiência, foram fixadas as seguintes premissas para análise da liminar vindicada:
1°) segundo posicionamento da Organização Mundial da Saúde (1990), a homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica. Tal conclusão decorre de estudos iniciados pelo Fx-Presidente da Associação Americana de Psicologia: NICHOLAS CUMMINGS, acolhidos pelo C.F.P. desde 1975; 
2°) não sendo doença, mas uma orientação sexual, o polêmico Projeto de Lei n° 4.931/2016, do Deputado Federal Ezequiel Teixeira (PTN-RJ), denominado "cura gay" é passível de criticas, na medida em que parece equiparar a homossexualidade a outros transtornos da sexualidade, ideia essa não defendida pelos autores
3°) sendo a Psicologia uma Ciência da Saúde, constitui dever de todo psicólogo inscrito no C.F.P. aprimorar-se profissionalmente, envidando esforços na promoção da qualidade de vida das pessoas e das coletividades, baseando seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano. Deve buscar também eliminar quaisquer formas de discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, nos termos dos princípios fundamentais fixados pelo Código de Ética Profissional e regulamentados pela Resolução C.F.P. n° 10/2005; 
4°) já em seu Preâmbulo, a Constituição Republicana de 1988 começa por estabelecer uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos; elencando como um de seus objetivos fundamentais a promoção do bem-estar dc todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3°, IV), além de garantir a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (art. 5°, IX)."
Que curioso, não? Acusam o juiz de ser a favor da "cura gay" e dizer que homossexualismo é doença... mas ninguém parece ter se dado ao trabalho de ler a liminar por completo e ver que ele atesta justamente o contrário...

Isso apenas comprova algo que eu sempre comento por aqui: essa turminha do politicamente correto não presta! A verdade parece ser moldada ao seu interesse, fatos são omitidos e mentiras são elaboradas para justificar o seu discurso de suposta defesa pelo o que é certo. É aquela velha mentalidade da bipolarização, em que existem apenas dois lados da verdade, sendo que o lado deles é o inquestionavelmente certo, e quem não pensa exatamente como eles está errado. 


Mostra como a sociedade em geral não tem senso crítico. Aposto que a esmagadora maioria dos politicamente corretos não se deu ao trabalho de ler a liminar por completo, mesmo sendo ela curtinha, para assim ler bem os preceitos ali descritos. Basta um jornaleco qualquer (e não me refiro a mídia pequena, me refiro aos grandes meios de comunicação mesmo) colocar uma manchete tendenciosa ou o amiguinho do "Feice" compartilhar uma postagem elaborada por uma comunidade de esquerda, e já tomam aquilo como verdade, já dizem que o juiz autorizou "cura gay", quando não tem nada disso no documento.

Além disso, veja que o juiz lembra que a Constituição garante a liberdade de expressão em diversas esferas, inclusive nas atividades científicas. Estou confuso: o povinho politicamente correto não gosta de defender a liberdade de expressão? Por que condenam o que o juiz está escrevendo? Ou liberdade de expressão só vale quando é para dizer algo que eles concordam?


Já falei várias vezes sobre essa questão de sexualidade. Na minha visão, gênero e orientação sexual são coisas distintas. Gênero é a classificação biológica, é o sexo de nascimento, ou é homem ou é mulher (desconsiderando raríssimas exceções em que existe algum tipo de questão médica, como é o caso de um hermafrodita, por exemplo). Por sua vez, a orientação sexual está relacionada com as preferências físicas e afetivas do indivíduo, algo que ele vai desenvolver naturalmente durante a sua vida, podendo até mesmo transitar entre diferentes opções. Embora eu ache exagero a imensa quantidade de orientações sexuais que existe hoje em dia, respeito o direito que a pessoa tem de seguir o caminho que quiser. 

E, exatamente como o juiz disse, o fato do indivíduo ser homossexual, ou qualquer outra classificação, não está dizendo que seja doença

Só que essa história de orientação sexual não é tão simples assim. É algo que mexe com a cabeça de qualquer um, pois é uma questão que pode levar à dúvidas, à questões não respondidas, à inquietações das mais diversas. A pessoa pode estar confusa sobre o que ela realmente quer, ela pode estar em dúvida por conta de sinais e impressões que ela tem. E sim, pode estar sofrendo por conta de sua orientação sexual, seja por conta de dúvidas próprias, seja por conta de preconceito (que sim, existe), por qualquer motivo. 

E, diante de uma situação dessas, em que a pessoa tem um monte de coisas passando pela sua cabeça, o que geralmente se faz é ir em um psicólogo.


Eu nunca fui, e não tenho conhecidos trabalhando nessa profissão, então minha interpretação aqui é baseada no que eu observo e leio. O psicólogo, na minha visão, é um profissional que se especializa em entender o comportamento humano, entender como que as pessoas agem, as decisões que tomam e as atitudes que praticam. Em muitos casos, focado em um determinado tema (por exemplo, o psicólogo que trabalha com casais para discutir questões de relação). Sei que posso ofender muita gente, mas na minha humilde visão o psicólogo não é exatamente um médico, pois eu associo o médico às questões mais biológicas, mais físicas, é o cara que vai cuidar da saúde do corpo; por sua vez, o psicólogo cuida da mente, da cabeça, cuida de questões mais abstratas. 

Embora logicamente que existe uma relação entre o corpo e mente, não questiono isso. Alguma questão psicológica pode gerar consequências físicas, e vice-versa.

Aí existem diferentes questões de cunho psicológico que uma pessoa pode querer tratar, temas que ela deseje entender e lidar melhor. Por exemplo, o sujeito pode ter pavor de voar de avião, tipo a Marge naquele episódio dos Simpsons. Em uma situação dessas, o psicólogo vai ajudar aquela pessoa a compreender a fonte desse medo, avaliar bem como que isso a influencia, e a partir disso sugerir um "tratamento". Coloco entre aspas pois não é um tratamento à base de remédios, mas sim uma série de orientações e sugestões que podem ajudar esse indivíduo a superar essa questão de medo de entrar em um avião.


Agora... se uma pessoa pode ir em um psicólogo para discutir sobre medo de voar, sobre o relacionamento com sua esposa, sobre sua ansiedade... por que ela não pode discutir sobre sua orientação sexual?

Vamos imaginar aqui uma historinha... Imagina um cara que está confuso, que começa a questionar a sua sexualidade. Ele já teve algumas namoradas, mas nenhuma delas lhe dava prazer, relacionamentos que logo acabavam. Por sua vez, ele se via mais à vontade na companhia de homens, até perceber que ficava até mesmo um pouco excitado ao ver um cara bombado correndo na praia. Mas esse sujeito não acredita ser gay, embora não entenda que está acontecendo. Aí ele decide conversar lá com um psicólogo, contar tudo que está passando. E esse psicólogo vai ali perguntar do passado, estudar a cabeça dessa pessoa, para ajudá-la a entender o que está acontecendo. Talvez o cara esteja passando por uma fase, por conta de algum acontecimento no passado, não sendo gay de verdade; ou pode ser que sim, no fundo ele tenha ali um interesse pelo mesmo sexo, ainda despercebido, que o psicólogo poderá ajudá-lo a reconhecer.

O que é que tem de preconceituoso nisso? Que tem de errado?

Existem logicamente dois lados da moeda... Eu não estou negando que possam existir psicólogos que tenham sim uma mentalidade homofóbica e que busquem a todo o custo convencer seus pacientes gay a mudarem de orientação. Como eu costumo dizer, mau profissional tem em qualquer área, e um psicólogo que faça algo assim está agindo de forma errada. Tão errado quanto se ele estivesse tratando de seu paciente segundo sua opinião particular das coisas.

Pergunto pra galera politicamente correta: e se uma psicóloga que atende casais com problemas for uma feminista extrema, e então começar a implementar em suas consultas a sua ótica parcial da relação entre homem e mulher? Se ela chegar e sempre culpar o marido e tomar partido da esposa, independente do que tenha acontecido, o que vocês vão dizer aqui? Se ela defender uma "cura macho", vai ter problema?


O que eu penso é que o psicólogo, durante o atendimento, deve assumir uma postura relativamente neutra, não deixando as suas opiniões pessoais influenciarem no julgamento e na avaliação do paciente. É com isso que o Conselho Federal de Psicologia deveria estar preocupado.

Vamos imaginar aqui outro exemplo. Imagine um adolescente, recém-chegado na maioridade, que então decide consultar um psicólogo. Só que ele passa por um problema diferente do outro lá de cima. Esse jovem, durante toda a sua infância, foi criado pela mãe de forma muito feminina, pois sua mãe era daquelas que acha errado menino brincar de carrinho e menina de boneca. Assim, ele cresceu vestindo rosa, brincando de Barbie e sendo criado de uma forma exageradamente liberal no quesito de gênero. Só que ele estava crescido, os hormônios começando a martelar, e ele estava começando a ficar interessado nas meninas da escola. Aí o rapaz fica confuso: afinal, ele cresceu escutando a mãe achar lindo que ele arrumasse um namorado, que ele abraçasse seu lado feminino, mas agora ele estava ali sentindo que aquilo não era pra ele, que ele estava era com vontade de abraçar uma pessoa do sexo feminino.

E aí? Se o psicólogo perceber que o rapaz se sente heterossexual, que isso que ele enxerga pra ele, se o psicólogo começar a ver que a tal homossexualidade era algo imposto e moldado pela mãe do garoto, restringindo a sua liberdade de escolha e orientação sexual... Ele estará errado em dizer para o rapaz que ele deve buscar aquilo que ele sente, que ele deve ser o que ele quer ser, que ele deve gostar de garotas pois é o que ele percebe como o ideal para ele?


Ou isso será "cura gay"?

Interessante mesmo... Para o politicamente correto, não há problema em convencer um heterossexual a virar homossexual, mesmo que seja contra sua vontade; mas é um pecado convencer um homossexual a ser heterossexual, mesmo que seja o que ele quer de verdade...

E é isso que o juiz prega em sua liminar: não é correto privar uma pessoa que busque, por sua livre e espontânea vontade, se consultar com um psicólogo para falar a respeito de sua orientação sexual. Independente de qual seja o objetivo, desde que se garanta os seus direitos e a sua liberdade.
"Assim, a fim de interpretar a citada regra em conformidade com a Constituição, a melhor hermenêutica a ser conferida àquela resolução deve ser aquela no sentido de não privar o psicólogo de estudar ou atender àqueles que, voluntariamente, venham em busca de orientação acerca dc sua sexualidade, sem qualquer forma de censura, preconceito ou discriminação. Até porque o tema é complexo e exige aprofundamento científico necessário."
Viram bem? Ninguém está falando em enfiar uma "cura gay" goela abaixo (ou bunda acima, sei lá) de um homossexual. O objetivo é permitir que uma pessoa busque ajuda psicológica para discutir sobre sua orientação sexual, não importando o que ela queira: pode ser para entender os motivos que levaram à tal escolha, pode ser para ajudá-la a enfrentar o preconceito da família e amigos, pode ser por ela não se sentir bem como heterossexual e por sentir que no fundo é homossexual... e também pode ser para que ela busque ajuda para deixar de ser gay, se assim ela deseja.

Penso que é por aí. Cabe repetir mais uma vez, não estou aqui dizendo que o gay deve ser curado, não tem nenhum tipo de doença para ser curada só porque a pessoa é homossexual ou segue qualquer uma das diversas orientações sexuais existentes. Mas, é necessário entender que podem existir pessoas que têm o interesse de dialogar com profissionais de psicologia sobre essa questão, que se sintam desconfortáveis com o fato de serem gays, da mesma forma que vão existir pessoas que vão precisar do mesmo tipo de orientação psicológica pois não querem ser heterossexuais. Privar essas pessoas de acompanhamento psicológico quando elas precisam de ajuda, é uma grande maldade.

Mas, no mundo politicamente correto de hoje em dia, existem coisas que todos devem adorar, que devem ser aplaudidas incondicionalmente. Uma delas é ser gay. Para a sociedade de hoje, ser gay ou ter qualquer orientação sexual que não seja hétero é o considerado "correto", é lindo, é pop, é maravilhoso. E nada minimamente contrário a isso pode ser feito, mesmo que seja de interesse do indivíduo. Parece que na cabeça bitolada e xiita dos politicamente corretos, se uma pessoa não quiser ser gay, se ela quiser fazer um tratamento para melhor entender ou mesmo revisar a sua orientação sexual, ela não tem esse direito...

A não ser que seja para deixar de ser heterossexual, para virar gay. Aí, tá liberado...

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