terça-feira, 5 de setembro de 2017

A Polêmica das Bicicletas

Estive vendo outro dia em um telejornal uma notícia sobre um protesto de ciclistas, condenando a morte de uma pessoa que estava andando de bicicleta e foi atingida por um carro em alta velocidade, cujo motorista ainda não parou para prestar socorro. Mais um episódio do tipo, consequência do trânsito caótico e da impunidade em nosso país, em que um motorista bêbado pode matar quantas pessoas quiser, e só precisa pagar uma fiança para ficar livre. Mais um exemplo de como o Brasil é realmente um país sofrível, onde nada funciona direito.


Enfim... Mas vendo tal reportagem, decidi escrever aqui um pouco sobre essa questão dos ciclistas. Aliás, escrevi sobre isso há anos, neste post aqui. E vemos que pouca coisa mudou... Como sempre, eu não vou na linha da maioria das pessoas e da mídia em geral, e procuro pensar aqui sob uma ótica diferente, tentando ver questões que são importantes sim, mas que são geralmente esquecidas.

Como de costume, venho aqui pra já explicar e deixar claro algumas coisas. Afinal de contas, hoje em dia a sociedade está muito bipolarizada, as pessoas ficam com uma postura radical de que só existem duas opiniões: a opinião delas, que é a certa, e a opinião dos outros, que é contrária. 


Assim, eu já digo aqui: não estou condenando os ciclistas, não estou dizendo que os motoristas de carro estão certos, não estou dizendo que todos os ciclistas são imprudentes, não estou falando que foi bem feito o cara ter sido atropelado, não estou defendendo aqueles que dirigem bêbados, não estou me opondo às bicicletas...

Acho que não esqueci de nada. Continuemos.

Correndo o risco de ser redundante, eu concordo que existe uma pouca proteção ao ciclista em nossas cidades, por conta de motoristas que não os respeitam. O sujeito em uma bicicleta, por mais que esteja com todos os equipamentos de segurança, se encontra em uma posição muito vulnerável em relação aos carros e demais veículos, de forma que qualquer erro pode ser fatal. E muitos motoristas abusam, jogando o carro em cima dos ciclistas, ignorando completamente seu espaço e com isso causando acidentes graves como nos acostumamos a ver. Um motorista que comete um crime desse deve ser punido de forma rigorosa.


Agora... ver tal assunto me faz pensar uma coisa...

Diante de um episódio desses, logo a sociedade se comove, criticando os motoristas imprudentes em seus carros, e reiniciam as discussões sobre os direitos do ciclista. Dizendo, por exemplo, que eles têm o direito de trafegar nas ruas, e os demais veículos devem respeitá-los.

Sem dúvida, os direitos dos ciclistas devem ser respeitados. Mas... e os seus deveres?

Esse é um ponto geralmente esquecido. Fala-se somente dos direitos, que é a parte mais fácil, mais cômoda, pois tipicamente esses direitos correspondem a coisas que são dadas para essas pessoas, dependem do esforço alheio e proporcionam algo que é favorável ao grupo que clama por esses direitos. Agora, os deveres são atitudes e ações que são de responsabilidade deste mesmo grupo, que devem ser realizados por eles mesmos, e que muitas vezes estão associados aos direitos de outras partes. A vida em sociedade depende que cada um perceba bem essas duas parcelas, tendo noção de quais são os seus direitos e até onde eles chegam, mas também tendo consciência de seus deveres, colocando-os em prática.


Só que ninguém... quase ninguém pensa assim.

Todo mundo só está preocupado com os seus direitos, e ignoram os seus deveres. É algo da sociedade mesmo, ainda mais a brasileira, onde vale a Lei de Gérson, onde todo mundo quer levar vantagem. Na hora de reclamar que seus direitos não estão sendo garantidos, as pessoas não perdem tempo. Porém, quando é para cumprir os seus deveres, desconversam, dizem que não sabiam ou se fazem de bobos. O mesmo é válido quando se trata de respeitar os direitos dos outros: todo mundo quer que seus direitos sejam assegurados, mas na hora de fazer a sua parte por conta dos direitos dos outros, ninguém se preocupa.

E é nessa linha que eu comento sobre a situação dos ciclistas. Pois, como acontece com outros grupos vitimizados pela sociedade (como negros, mulheres, não-heterossexuais, "di menor", idosos, moradores de comunidade, pobres e por aí vai), se fala muito de seus direitos, enquanto que quase nada de seus deveres.

Por exemplo. Fala-se que lugar de ciclista é na rua, que eles têm o direito de trafegar ali, que os motoristas de carros têm o dever de respeitar o seu espaço. Tudo bem, estou de acordo com isso, não questiono.


Observe apenas o seguinte: até o momento, só se falou do direito do ciclista e do dever dos outros.

Legal... Mas aí vamos continuar sobre essa questão do ciclista trafegar na rua. Se ele está conduzindo no mesmo espaço que os demais veículos, como carros, motos e ônibus, então eu acredito que as mesmas regras, deveres e obrigações que incidem sobre eles devem valer para os ciclistas também, certo?

Então me explica por que a grande maioria dos ciclistas, quando trafegando nas ruas, ignora o seu dever de respeitar as regras de trânsito e não param no sinal vermelho, desrespeitando o direito dos pedestres que estão atravessando as ruas?


Aposto que você já deve ter percebido isso. Eu mesmo já fui quase atropelado por bicicletas em alta velocidade, que não paravam no sinal vermelho e vinham costurando entre os pedestres que atravessavam pela faixa. 

Afinal de contas... Querem andar na rua, mas não querem respeitar as regras como os outros? Assim é moleza, né?

Aí vai aparecer algum "ixperto", possivelmente ciclista, que vai dizer "Ah, mas e se não tiver nenhum pedestre atravessando, não tem problema...".


Tem sim! Será que se o sujeito estiver em um carro, e não tiver nenhum pedestre, ele pode avançar? Claro que não! Digo mais uma vez, é obrigação do condutor do veículo, seja ele qual for, cumprir com as regras e os deveres, e isso inclui parar no sinal vermelho. 

Se vão procurar justificativas para defender a ultrapassagem do sinal vermelho, que tal então falarmos sobre outro pésimo hábito promovido por muitos ciclistas, que é trafegar na calçada?


E aí? Pode?

Cadê o respeito pelo direito do pedestre? Afinal de contas, na hora de criticar os motoristas de carro, dizem que lugar de bicicleta é na rua, mas na hora de falar algo sobre os ciclistas que andam pela calçada, ninguém fala nada, não tem essa história de "lugar de bicicleta é na rua", não é? Ou será que a bicicleta pode ir onde quiser?

Eu me divirto com a hipocrisia das pessoas... Muitos ciclistas criticam o desrespeito dos carros, que não levam em consideração que o cidadão em uma bicicleta está em uma posição mais vulnerável, que em um acidente o ciclista é quem vai levar a pior. Mas esses mesmos ciclistas ficam calados diante de situações como essa, em que os papéis se invertem, em que o ciclista passa a ser o personagem mais "forte" e o pedestre o mais vulnerável. Cansei de ver situações onde o transeunte era atingido por uma bicicleta, muitas vezes correndo em alta velocidade pela calçada, costurando no meio das pessoas...


Repito: todo mundo só se lembra de seus direitos... mas os direitos dos outros, que se fodam.

O que incentiva esse tipo de postura é a velha e manjada impunidade, a justiça frouxa e incompetente que conhecemos. A mesma que permite que um motorista beba, atropele e mate uma pessoa, e depois possa sair pela porta de delegacia após pagar a multa, é a mesma que tolera abusos e infrações cometidas pelos ciclistas. Se um sujeito está numa bicicleta e atropela uma pessoa, ao atravessar um sinal vermelho ou por estar trafegando na calçada, sabe o que vai acontecer?

Nada!

Até porque existe uma questão interessante: diferente dos automóveis, para os quais você precisa ter uma licença e onde existe uma placa que o identifica, para andar de bicicleta não existe nenhum tipo de registro. Se uma bicicleta te acerta, não tem como anotar placa e depois aplicar multa.


Penso que deveria haver algum tipo de registro sim. Imagino que isso iria coibir certas infrações e iria fazer com que os ciclistas estivessem mais atentos aos seus deveres. Evitaria que o cara andasse de forma inconsequente na calçada, que ultrapasse o sinal vermelho, até mesmo permitiria uma maior fiscalização quanto ao uso de equipamentos de segurança e quanto à manutenção da bicicleta. Afinal, imagina quantas por aí estão sem freio ou pneus carecas, o que pode contribuir para um acidente.

Repito mais uma vez: não estou dizendo que os ciclistas sejam todos criminosos! Eu estou ciente e concordo que eles merecem respeito nas ruas. Acontece que junto com os direitos, vêm os deveres, e ninguém fala muito deles. O respeito pelas regras deve ser de todas as partes: motoristas, ciclistas e pedestres. Acho ótimo que falem dos direitos dos ciclistas, que existam ações de conscientização pregando o respeito por eles, mas não basta isso. É necessário conscientizá-los também de seus deveres e de que devem respeitar os direitos dos outros também. 

Um comentário:

Isaac Schlesinger disse...

Mais uma vez nosso amigo Texugo mostra o lado mais unknowed das notícias. É sempre ótimo ver alguém que nada contra a correnteza para elucidar ambos os lados de um acontecimento. Credibilidade máxima, mais um ótimo post. Abração, Texugo ;)