sábado, 3 de dezembro de 2016

Força Chape


Eu sei que meu blog aqui é muito mais voltado para alguns tópicos, geralmente coisas mais leves como as piadas e sátiras, outras vezes fazendo os meus devaneios sobre algum acontecimento recente nos campos da política ou mesmo do cotidiano, algumas com um foco esportivo, outras postagens recorrendo à nostalgia e por aí vai. Mas acho que tem momentos em que o assunto aqui segue uma linha mais séria, e diante do triste acontecimento dessa semana, eu acho que é um desses momentos de parar e refletir sobre a tragédia que aconteceu com a equipe da Chapecoense.

Acredito que não preciso detalhar muito aqui, pois a notícia está muito marcada nas pessoas... Talvez sirva como lembrança, para aqueles que venham a ler essa postagem daqui alguns anos, embora eu creia que seja difícil esquecer. O time da Chapecoense estava a caminho de Medellín na Colômbia, para disputar a final da Copa Sulamericana, o maior feito da história desse jovem clube que poderia conquistar o seu primeiro título internacional. Depois de pegar um vôo para a Bolívia, a delegação do time, juntamente com alguns repórteres e jornalistas, pegou um fretado em direção à cidade colombiana. Porém, ao se aproximar do aeroporto, a aeronave ficou sem combustível e caiu em uma região montanhosa. Praticamente todos no avião perderam a vida, apenas três jogadores da Chapecoense, um repórter e dois tripulantes conseguiram sobreviver. Uma tragédia sem precedentes, algo lamentável que interrompeu a bonita jornada de uma equipe do interior de Santa Catarina que estava prestes a fazer história.

Eu pessoalmente soube disso na manhã deste 29 de novembro de 2016, ao me preparar para o trabalho. Alguém me ligou no celular e perguntou se eu tinha visto o que tinha acontecido com o avião da Chapecoense. Imediatamente liguei na GloboNews para ser surpreendido pela reportagem. Era ainda um momento muito recente, faziam poucas horas do ocorrido e as buscas estavam interrompidas devido à madrugada. Naquele momento, muitas informações sem nenhum tipo de comprovação, sem precisar exatamente a quantidade de mortos e feridos. Até chegar a notícia de que a maioria havia perecido. Pouco depois, chegaria também a informação de que o goleiro titular, que havia sido resgatado dos escombros com vida, não resistiu aos ferimentos a caminho do hospital.

Foi realmente algo muito triste e chocante. Praticamente todo o time estava a bordo, fora alguns jogadores que ficaram no Brasil por estarem lesionados ou por outro motivo. Membros da comissão técnica também faziam parte da delegação, e vários jornalistas de diferentes canais de televisão, jornais e rádios que estavam acompanhando o time de Chapecó. A cidade, todo o Brasil, amanheceu em prantos... Todos comentavam a respeito do ocorrido, um clima de dor e desolação tomou parte de muitas pessoas. 

Não sei muito bem o que dizer aqui... Não quero aqui fazer promoção do meu site em cima do ocorrido, diferente de muitos oportunistas que foram extremamente desumanos ao tomar certas atitudes. Teve gente que, por exemplo, pegou imagens de filmes e as publicou como se tivessem sido registradas no vôo da Chapecoense. Tanto que eu até preferi só escrever aqui alguns dias depois do ocorrido, para dar tempo da poeira baixar, para dar tempo de algumas perguntas serem respondidas, e assim falar a respeito desse assunto sem nenhum tipo de afobação. 

O que eu apenas digo é como esse episódio mostra como é a vida... Muito repentinamente, algo pode acontecer... Uma mera decisão, algo que possa ser a princípio insignificante, sem importância... pode ser um momento em sua vida em que tudo vai mudar. Não quero aqui ser trágico... Da mesma forma que um determinado ponto da vida algo pode acontecer e trazer um resultado triste, também algo bom pode acontecer. Apenas reflito sobre como as coisas infelizmente fogem de nosso controle, e um dado momento será tomada uma decisão que terá consequências que naquele momento você não pode sequer imaginar.

Como diz uma frase de Charles Chaplin, que coincidentemente li em algum lugar hoje: "cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre".

O que torna tudo isso ainda mais triste é ver como que a Chapecoense estava escrevendo uma história muito bonita... É um time humilde, ainda muito novo se comparado com clubes centenários de nosso futebol. De forma muito dedicada veio galgando aos poucos o seu lugar, vindo desde a série D até chegar à elite, nunca sendo rebaixada. Conseguiu o feito de se classificar para disputar a Copa Sulamericana, uma espécie de Libertadores menos badalada, mas ainda assim de grande importância. Enquanto times de maior expressão como Flamengo e Sport foram sendo eliminados, a Chapecoense foi seguindo até conquistar seu lugar na final com um empate contra o forte San Lorenzo da Argentina.

Digo até que o mais... não é a melhor palavra, mas diria, o mais curioso é que na última partida, nos acréscimos do segundo tempo que estava empatado em zero a zero, o goleiro Danilo fez uma defesa simplesmente milagrosa com o pé, impedindo um gol certo do San Lorenzo e que resultaria na eliminação do time de Santa Catarina. O mesmo goleiro que, resgatado ainda com vida, acabou falecendo a caminho do hospital...

De novo... são coisas que fazem você pensar... Uma defesa que assegurou a classificação para a final... mas que ao mesmo tempo condenou o time a essa triste tragédia. E pensar que, se a bola tivesse entrado, apesar da tristeza da eliminação do torneio, a Chapecoense estaria nesse fim de semana disputando a última rodada do Brasileiro, e depois seus jogadores e comissão técnica teriam suas merecidas férias com seus familiares e amigos...

Faz você pensar...

Claro que não podemos também pensar que um único momento é a causa singular de um determinado acontecimento. Como dizem, acidentes aéreos ocorrem por conta de uma série de fatores, e seguro que a defesa da semifinal não teve nada a ver com isso. Pelas condições em que o acidente ocorreu, com a rápida recuperação das caixas pretas e o depoimento de algumas pessoas, ficou já evidente que houveram vários fatores que causaram a queda do avião da Lamia. E, infelizmente, fatores humanos e de grande irresponsabilidade.


Já se sabe que a queda aconteceu por conta de falta de combustível. E isso aconteceu pois o avião foi abastecido com o mínimo necessário para chegar em Medellín, o suficiente para chegar e pousar, contrariando todas as regulamentações de vôo. Não me recordo exatamente do que vi nas notícias, mas é obrigatório que, além do combustível necessário, o avião leve adicionalmente a quantidade para chegar em aeroportos secundários (para onde deveria ir caso o aeroporto de destino não estivesse acessível) e mais tantos por cento desse valor total. Seria o suficiente para mais uma hora de vôo. Mas não foi o que aconteceu. Soma-se a isso o fato de que estava prevista uma escala em um aeroporto boliviano, mas o piloto optou por seguir direto, pois a decolagem seria mais tarde que o previsto.

Com isso, o avião se aproximou do aeroporto já no limite. Por uma triste coincidência do destino, uma outra aeronave colombiana se aproximava pedindo prioridade por falta de combustível. O piloto da Lamia indicou problemas semelhantes, mas sem decretar a emergência. Isso porque, se o piloto declara emergência, depois seria realizada uma investigação e, comprovando que tal situação emergencial havia ocorrido por erro do piloto (como aconteceu), sua licença poderia ser cassada. Em outras palavras, ele não quis correr o risco de perder o emprego ao admitir a sua imprudência. E com isso, foi obrigado a circular ao redor do aeroporto, até que o combustível se acabou, e assim ele acabou não só com sua própria vida, mas de dezenas de inocentes que estavam a bordo...

Mostra como a imprudência pode resultar em tragédias... Trago isso para o dia-a-dia: não colocar o cinto de segurança, atravessar a rua fora da faixa, não colocar um equipamento de segurança ao fazer uma obra, deixar material de limpeza ao alcance de filhos pequenos... Gestos motivados pela preguiça, pela pressa, por aquela sensação de "não vai acontecer comigo", que um dia podem ser responsáveis por algo grave...

Enfim, a repercussão deste triste acidente com o time da Chapecoense e os jornalistas que a acompanhavam foi muito grande. No mundo esportivo, vimos a homenagem em partidas com minutos de silêncio, palavras de conforto e apoio de personalidades e jogadores de clubes por aí afora. Aqui, a final da Copa do Brasil e a última rodada do Brasileiro foram adiadas, em luto pelo ocorrido. Diversos times brasileiros e alguns mesmo do restante da América do Sul se colocando à disposição para emprestar jogadores ao clube catarinense, sem nenhum custo, chegaram inclusive a solicitar para a CBF que a Chapecoense seja impedida de ser rebaixada pelos próximos anos, considerando que ela vai ter que remontar todo o seu elenco. Uma postura legal dos times brasileiros, com exceção de alguns dirigentes do Internacional, prestes a sofrer o seu primeiro rebaixamento, que disseram que seu time foi prejudicado pela postergação da última rodada e que aceitariam o encerramento do torneio, mas desde que o Inter não fosse rebaixado. Pelo menos os jogadores não foram nessa linha, reconhecendo que não se trata de um momento de ser egoísta.

Se por um lado tivemos esse caso isolado de falta de decência de alguns dirigentes do time gaúcho, eu não poderia encerrar aqui a postagem sem falar a respeito da atitude extremamente louvável e solidária não apenas no Atlético Nacional, adversário da Chapecoense na final, mas também de todo povo da Colômbia.


Desde o primeiro momento, as pessoas de lá prestaram muitas homenagens a todos aqueles que perderam a vida no acidente e fazendo de tudo para ajudar os sobreviventes. O time colombiano inclusive pediu à Conmebol que o título da Sulamericana fosse dado para a Chapecoense. Mas o mais marcante ocorreu na quarta-feira, dia da partida, em que eles organizaram uma grande homenagem no estádio, convidando aos torcedores para comparecem vestidos de branco, com a presença de milhares de pessoas. Foi algo muito bonito, confesso que sou um texugo que não se emociona fácil, mas ao ver a demonstração de solidariedade dos colombianos tenho que admitir que houveram momentos em que precisei secar as lágrimas. Sem dúvida o Atlético Nacional e o povo colombiano ganharam muito o respeito dos brasileiros.

Eu não sei... Mais uma vez digo que não quero aqui parecer oportunista. Mas, mesmo diante de uma triste tragédia, eu acho que devemos também dar valor a certas coisas boas que surgiram de tudo isso. Repito, as homenagens realizadas lá pelos colombianos, assim como aqui no Brasil em Chapecó, mostraram um lado bonito do ser humano, com solidariedade e consideração por aqueles que passaram por momentos de grande tristeza. Mostrou-se mais do que nunca que no esporte não deve existir a postura de inimigos, como vemos aqui no Brasil em brigas de torcida, como vimos nas Olimpíadas com a falta de respeito a atletas que competiam contra os brasileiros. Existe um limite entre o que é torcer, de forma apaixonada, até mesmo fazendo as brincadeiras com os rivais, e a agressividade desumana, aquela visão de que o adversário é alguém que precisa ser destruído. Nesse ponto, diria que os colombianos estão muito mais evoluídos que nós brasileiros. Não só no esporte, mas no cotidiano também. Divergências, opiniões diferentes, sempre vão existir. Mas não é porque alguém é diferente de você, que merece ser agredido. Falta um pouco mais de compreensão, respeito ao próximo e solidariedade no mundo de hoje, e fica a esperança de que, diante desse episódio, as pessoas se dêem conta do que realmente é importante...

Enfim... não sei muito bem como terminar aqui... Acho que me resta apenas enviar meus sentimentos aos familiares e amigos das vítimas, desejar uma boa e rápida recuperação aos sobreviventes e prestar a minha homenagem e respeito pela Chapecoense...

Força, Chape.

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