quarta-feira, 24 de agosto de 2016

E lá se foram as Olimpíadas


E acabou... Estamos na ressaca pós jogos olímpicos, depois de duas semanas de várias competições, recordes batidos, mitos destruindo, piscina de água verde e vários outros fatos marcantes. As Olimpíadas sempre me entusiasmaram como competição esportiva, mais até do que Copa do Mundo, pela grande diversidade de esportes, pela presença de vários países e pelas histórias curiosas e interessantes que sempre acontecem. E dessa vez, com o toque especial delas acontecerem aqui no Brasil, no Rio de Janeiro. Terminados os jogos, chega a hora do balanço final.

Do ponto de vista esportivo, foi um bom desempenho para o Brasil, embora abaixo do que se esperava para uma nação competindo em casa. Foram 19 medalhas ao todo, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 6 de bronze. Historicamente falando, foi sim o melhor desempenho dos atletas brasileiros com recorde de douradas. Essas medalhas foram conquistadas em diversos esportes, e vale a pena o registro das conquistas:

Ouro

Rafaela Silva - Judô
Thiago Braz - Salto com Vara
Robson Conceição - Boxe
Martine Grael e Kaneha Kunze - Vela
Bruno e Alison - Vôlei de Praia
Seleção Masculina de Vôlei
Seleção Masculina de Futebol

Prata

Felipe Wu - Tiro Esportivo
Diego Hypolito - Ginástica
Arthur Zanetti - Ginástica
Agatha e Barbara - Vôlei de Praia
Isaquias Queiroz - Canoagem
Isaquias Queiroz e Erlon de Souza - Canoagem

Bronze

Rafael Silva - Judô
Mayra Aguiar - Judô
Arthur Nory - Ginástica
Poliana Okimoto - Maratona Aquática
Maicon Siqueira - Taekwondo
Isaquias Queiroz - Canoagem

Sim... quem diria que o futebol finalmente conquistou a tão desejada medalha de ouro? Já disse isso e repito, eu pessoalmente estava torcendo contra isso, pois acho que o futebol é exageradamente valorizado aqui em nosso país, deixando de lado outros esportes que não recebem tanto incentivo assim e que podem ser não apenas vitoriosos, mas também ajudar na formação das crianças. Se você for ver, por exemplo, o recordista Isaquias Queiroz, que conquistou três medalhas, não era conhecido e certamente teve que dar muito duro para treinar e conseguir o que ganhou. Por sua vez, a grande maioria dos jogadores de futebol, sem fazer muito esforço, descola contratos milionários e viram ídolos. É só ver como estão enaltecendo uma seleção que não fez mais que sua obrigação, que ainda conseguiu proezas como empatar como empatar com o Iraque, que não tem nenhuma importância no cenário do futebol mundial mesmo com sua seleção principal... Um time que está capengando nas eliminatórias, sofrendo contra times bem mais fracos e sem essas estrelas aí como o Neymar, que ainda vem com papinho de "vão ter que me engolir".


Na boa... Isso mostra a diferença. Essa agressividade, essa postura de se achar o fodão e que aqueles que falaram mal dele estavam errados, só comprova que o Neymar não passa de um metido arrogante. O pior de tudo é ver todo mundo babando ovo desse babaca, mais ridículo é ter um monte de gente achando que depois de uma vitória sofrida nos pênaltis o 7 a 1 foi vingado. Fala sério, nada vai apagar o vexame histórico sofrido pelo nosso futebol ao ser humilhado dentro de casa, e só não foi por mais porque os alemães sentiram pena...

Bom, já dediquei muito tempo pra esse time de futebol. Temos que aplaudir as conquistas de outros atletas brasileiros. Como a seleção de vôlei masculino, mesmo desacreditada após um início complicado e com alguns jogadores lesionados jogando no sacrifício, conseguiu o lugar mais alto no pódio. Devemos aplaudir o bom desempenho nas lutas, incluindo não apenas o já forte judô mas também no taekwondo e no boxe. Um ouro surpreendente no salto com vara, várias conquistas na canoagem e ginástica, um ouro e um bronze no vôlei de praia, um pódio no tiro, uma vitória na vela e um bronze chorado na maratona aquática. Realmente, o desempenho dos brasileiros foi muito bom de uma forma geral.

Por outro lado, tivemos algumas falhas e decepções inesperadas. Como comentei no último post, foi inesperado a seleção de futebol feminino perder e sequer conquistar o bronze. Mais um grupo que certamente vai cair no esquecimento, principalmente depois da conquista do time masculino. O povo esquece fácil, fazia pouco tempo estavam dizendo que Marta era melhor que Neymar e agora endeusam o ex-santista como maior que Pelé. A seleção de vôlei feminino, da mesma forma, chegou para a competição como franca favorita, não tinha perdido nenhum set, e caiu diante de um time azarão da China, que acabou conquistando o ouro. Confesso que em parte, fiquei chateado com o pífio desempenho dessas duas seleções, esperava mais delas...

E logicamente tivemos outros atletas de grande destaque nesses jogos, positivos e negativos. Não tem como não falar da ginasta Simone Biles, com seus saltos impressionantes, ou do tenista Novak Djokovic, que foi precocemente eliminado do torneio. Vamos sempre nos lembrar da nadadora húngara Katinka Hosszu que faturou três ouros e tinha seu marido torcendo feito um louco, e também do levantador de peso (sei lá se é assim que chamamos) David Katoatau do Kiribati com suas dancinhas no palanque, mesmo depois de ser eliminado.


E não podemos deixar de falar dos dois mitos... Michael Phelps chegou a marca de 23 medalhas de ouro em Olimpíadas, algo inalcançável que o faz o maior ganhador da História. E Usain Bolt, que saiu do Rio como tricampeão em três provas do atletismo, outro feito que não será igualado tão cedo. Difícil dizer quem foi o maior, se o homem mais rápido na água ou na terra. Ambos se aposentaram nestes jogos, embora ainda exista quem acredite que eles tentem mais um pouco, pelo menos o Phelps. Mas acho que o melhor é eles saírem por cima, no auge, com as vitórias incontestáveis aqui no Rio.


Bom, sobre a organização e tudo mais, tenho que reconhecer que até que tudo funcionou relativamente bem. Não vou ser hipócrita como muitos brasileiros, que estavam extremamente pessimistas mas que agora dizem que sempre acreditaram no sucesso das Olimpíadas. Eu realmente estava esperando grandes fiascos, uma imensa falta de organização e muitos problemas, e mordi a língua ao ver que foi um evento onde, fora algumas exceções, tudo transcorreu numa boa. Podemos aqui comentar da piscina que ficou com água verde, provavelmente causado por uma pisada de bola homérica, ou mesmo do acidente com a câmera que despencou e felizmente não feriu ninguém com gravidade, mas acredito que foram casos isolados que não mancharam a competição.


Mas... fica a grande pergunta do tal legado que tanto falam... Afinal de contas, precisamos ter a consciência de que muitas das coisas aqui que funcionaram bem só tiveram essa tranquilidade pois eram condições controladas: regiões isoladas ao redor das competições, feriados decretados em dias críticos para reduzir o movimento nas ruas e a presença de segurança ostensiva são alguns exemplos de medidas que colaboraram para o sucesso da organização das Olimpíadas. Mas, tudo isso acabou e voltamos à nossa realidade. Não adianta virem com papinho de que tudo está perfeito, pois o que tivemos aqui no Rio nessas semanas foi um verdadeiro ponto fora da curva, se comparado com o que estamos acostumados. Essa é a grande pergunta, como que serão as coisas daqui em diante no Rio de Janeiro. Tomara que eu esteja enganado dessa vez também, mas eu não ficaria surpreso de ver todo esse legado olímpico ir por água abaixo...

Afinal de contas, Dudu Paes já fez o que queria. Deve estar rindo à toa, pois essas Olimpíadas foram a melhor propaganda para ele. Não interessa se vamos ficar com obras pela metade, se vamos continuar com aquela ciclovia caída em pedaços, se vamos continuar tendo um sistema de transporte público sofrível... Brasileiro esquece fácil, e tem a mania de se lembrar só das coisas boas, como vai lembrar positivamente dos jogos olímpicos. Vide a postura do público na cerimônia de encerramento, onde, apesar de muitas vaias, teve gente aplaudindo quando ele apareceu no palco.


Se em termos de organização tudo saiu relativamente bem, me sinto aqui obrigado a comentar mais uma vez a respeito da grande mancha do evento, que foi a postura da torcida brasileira na competição. Sei que já falei disso, e muitas pessoas até defendem as vaias e provocações que ecoaram pelas arenas. Teve gente dizendo que isso ocorreu pois o brasileiro torce de forma mais empolgada, apareceu gente tentando contra-atacar com episódios de racismo ocorridos em estádios europeus, enfim... Cada um tem o direito à sua opinião, sempre digo isso aqui. E a minha opinião continua a mesma, de achar a maioria da torcida brasileira um bando de babacas, sem um pingo de respeito, com uma postura mal-educada de dar vergonha.

Eu até entendo que existem certos esportes onde a vibração na torcida é algo esperado. Como no futebol. Mas existem certos esportes onde é necessário um pouco de educação ao estar na platéia. No tênis, por exemplo, onde na hora do saque é pra ficar de boca calada, mas mesmo assim cansei de ver partidas onde tinha gente provocando. Percebi isso na esgrima também, onde muitas vezes os atletas não conseguiam escutar o que o juiz falava. E no salto com vara, onde tivemos talvez o episódio que mais repercutiu.


O mais inaceitável em minha opinião é que a torcida contra era extremamente raivosa. Atletas de certos países eram vaiados pelo simples fato de não serem brasileiros, frases agressivas como "vai morrer" e outros xingamentos menos amistosos eram proferidos como se fosse uma guerra. Principalmente atletas norte-americanos, pelos motivos estúpidos que já conhecemos a galera cismava de enaltecer o ódio do anti-americanismo nas arenas. Mesmo no pódio tais atletas não eram respeitados, vide o exemplo do francês do salto com vara. Tudo bem que ele falou um monte de merda, mas o cara ali é um competidor como todos os outros milhares de atletas, veio para as Olimpíadas para competir de maneira limpa, para buscar os seus limites. Acho sacanagem o cara ganhar uma medalha ali, ser o segundo melhor do mundo (o que é um grande feito, mais do que 99,99% dos presentes no público jamais alcançarão), e o estádio inteiro cair em cima com vaias pra cima do cara. Como fizeram com outros atletas, uma puta falta de espírito esportivo. Brasileiro tem essa mania de torcer para o mais fraco, e se o mais forte ganhava, ninguém aceitava que ele havia sido melhor e merecedor da medalha de ouro, o vencedor era visto como o filho da puta que ganhou do atleta mais fraco e por isso tinha que ser vaiado durante a execução de seu hino.

Claro, houveram exceções, não estou dizendo que todos foram assim. Pra começar, certos figurões nunca seriam vaiados. Ninguém iria torcer pra Simone Biles cair de bunda no chão, ninguém estava ali querendo ver o Bolt tropeçar, não ia ter ninguém vaiando o Michael Phelps ou torcendo contra a seleção de basquete dos Estados Unidos. Apenas comprova que o anti-americanismo é seletivo, contra alguns... E em alguns esportes, até se viu um aplauso e incentivo para todos. Por exemplo, no levantamento de peso, era legal ver como em geral o público, apesar de sempre escolher o seu favorito, torcia e aplaudia qualquer um que fosse lá levantar o halteres.

Já que o assunto é polêmica, também não podemos deixar de comentar o episódio tosco e estúpido protagonizado pelo nadador Ryan Lochte dos Estados Unidos. Tudo começou quando ele e alguns companheiros da equipe de natação prestaram depoimento numa delegacia, alegando que haviam sido assaltados por bandidos vestidos como policiais, depois de sair de uma festa. Logicamente que isso gerou um grande rebuliço, mas logo começaram a aparecer as gravações de câmeras... Primeiro uma da Vila Olímpica, onde eles estavam voltando de noite, numa boa, como se nada tivesse acontecido, todos eles trazendo suas carteiras e celulares. E depois apareceu um outro vídeo, onde viu-se o que havia acontecido, em um posto de gasolina.


No final das contas, Lochte acabou foi é sendo pego mijando lá num canto dum posto de gasolina e quebrando uma placa de publicidade, gerando um problema com os seguranças. As coisas até que se resolveram ali, pois eles pagaram pelo conserto de tudo, mas fizeram a burrada de denunciar um crime que não havia ocorrido na delegacia. Lochte já havia voltado para os Estados Unidos, e seus colegas meio que pagaram o pato, dois deles foram inclusive retirados do avião antes de voltar.

Bom, sobre esse episódio, eu vejo que o cara foi um babaca mesmo... E muito burro, nos dias de hoje não se dar conta de que tem câmera em todo o lugar, ainda mais na Vila Olímpica, vai além de uma mera ingenuidade e chega a ser burrice mesmo. Lochte foi um verdadeiro cretino, e pagou o preço: todos os seus patrocinadores cortaram contrato com ele, e ainda deve rolar uma punição pesada vinda do comitê olímpico norte-americano. Se fudeu, e muito bem feito, pra deixar de ser mané.

Mas... Eu acho que valem aqui dois comentários... Primeiro, eu acho que gerou-se uma tempestade em copo d'água muito grande por conta desse caso. Não estou defendendo ele, tampouco dizendo que está tudo bem em uma falsa denúncia de crime. Porém, convenhamos que tem coisas muito piores para as nossas autoridades se preocuparem. Quase ninguém se revoltou, por exemplo, com o fato da Suzane Richthofen ter ganho indulto pra passar o dia dos pais em casa, só pra citar um acontecimento que ocorreu durante as Olimpíadas e não teve os mesmos holofotes. Digo até que a revolta foi ampliada pelo fato de Lochte ser americano, não me surpreenderia se tivesse sido um atleta de outra nação e a comoção do povo fosse menor. E em segundo lugar... Eu gostaria de ver todo o mesmo empenho da justiça e toda a mesma revolta da população com o nadador americano para outros casos que acontecem aqui no Brasil durante os outros dias do ano. O que não pode rolar é a hipocrisia de ter gente aplaudindo black-block que depreda patrimônio alheio, destruindo mais do que uma mera placa de publicidade, ou acharem normal chegar o Carnaval e todo mundo sair mijando pelos cantos, ainda se achando no direito disso pelo fato de não haver banheiro suficiente.


Enfim... Foram certamente jogos memoráveis. Tivemos muitos momentos marcantes, que serão lembrados. As lesões assustadoras, como o ginasta francês que quebrou a perna no salto ou o halterofilista que quebrou o cotovelo ao erguer o peso; as histórias de superação, como o francês da marcha atlética que, mesmo sofrendo uma mega diarréia durante a prova e depois de ter desmaiado no caminho, não se entregou e chegou no final; as curiosas "invasões" do campo de golfe por jacarés, capivaras e cobras; a emoção da deleção dos atletas refugiados; o banimento dos atletas russos do atletismo pelas denúncias de doping; as demonstrações de fraternidade e espírito olímpico, como das ginastas das Coréias tirando uma foto juntas... Muitas lembranças.


A expectativa agora é pelas Paraolimpíadas... Ou Paralimpíadas, como estão sendo chamadas, devido àquela uniformização escrota do português. Nessa competição, o Brasil tem atletas de ponta e as chances são de muitas medalhas. Mas fica realmente a dúvida se a atenção e repercussão deste evento será tanta, mesmo com ingressos a 10 reais. Fico me perguntando como que uma cidade que não é nem um pouco preparada para as pessoas com necessidades especiais teria a condição de sediar um evento como esse. Isso sem falarem boatos de falta de dinheiro para bancar a vinda de atletas e iniciativas para tentar economizar, que dão aquela sensação de que faltou grana para a competição paralímipica. Espero que eu morda a minha língua nessa também, pois seria muita sacanagem com esses atletas que são grandes exemplos de superação.

Apesar do grande sucesso da parte esportiva, uma coisa precisa ser dita em relação às cerimônias de abertura e encerramento. Em ambas ficou a impressão de que começou-se levando a sério, mas que então faltou ou grana ou disposição (ou quem sabe as duas coisas) e em um determinado momento a queda de qualidade foi notória. Já falei da abertura, onde até desenterraram Elza Soares, e no encerramento, começaram com uma jogada legal, mostrando os pontos turísticos da cidade...


Mas depois tivemos que aturar Lenine e uma bandinha enjoada que devem ter achado lá da feira de São Cristóvão pra cantar uma músicas de dar dó, durante a festa de entrada dos atletas. Até o bombadão besuntado de óleo de Tonga apareceu lá no palco, dançando com a cópia da Claudia Leite.


E algo precisa ser dito: eu não conseguiria conceber fantasia mais absurda que esses caras, que pareciam um monte de brócolis mutantes dançando como se estivessem sob efeito de alguma droga alucinante. Já não sou chegado nesse vegetal gerador de peidos, e depois dessa loucura certamente não vou colocá-los no meu prato do almoço...


Mas uma coisa precisa ser dita: os próximos jogos serão épicos! Afinal de contas, se os japoneses conseguiram fazer a inimaginável proeza de colocar o seu primeiro ministro como Super Mario, podemos esperar algo sensacional daqui a quatro anos. Foda vai ser acompanhar as competições, com o fuso horário ingrato pra Tóquio, só mesmo tirando algumas férias e mudando completamente o relógio biológico pra madrugar.


Com isso, se encerra a epopéia dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro. Foi bem legal, apesar da grande apreensão de que poderiam acontecer grandes problemas, tinha gente até temendo um atentado por aqui. Mas até que as coisas foram tranquilas, tivemos competições de primeira, e agora vamos ver as consequências de tudo isso, se vamos ter mesmo um legado positivo para a cidade e mesmo para o país.

E nos despedimos uma uma bela imagem das Olimpíadas...


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