domingo, 23 de agosto de 2015

Literatura Infantil?

Quando se é criança, uma das coisas que os pais sempre incentivam é o hábito da leitura. Algo muito bom e saudável para desenvolver a inteligência nessa fase tão jovem, o que certamente ajuda para que no futuro essa criança tenha um bom desempenho escolar e profissional na fase adulta. Normalmente são livros bem simples, de vocabulário de fácil compreensão, muitas vezes com figuras para ajudar no entendimento da história. Certamente você passou por isso, folheando livros de algumas poucas páginas narrando contos de fadas, histórias de bichos que falam e se vestem como pessoas ou outras coisas lúdicas e criativas para entreter uma mente infantil.

A não ser que você tenha nascido na Alemanha e seus pais, em um momento de absurda bizarrice parental, te deram o livro do Strulwwelpeter.


Esse livro de nome difícil de se pronunciar é datado da metade do século XIX. O seu criador, vendo que aparentemente não haviam bons livros para crianças, decidiu ele mesmo fazer um, cheio de ilustrações e com estórias rimadas, para dar ao seu filho pequeno. Ao todo, dez contos que fogem do padrão mais comum de histórias infantis que estamos acostumados, o que me leva a imaginar qual o conceito doentio de "bom livro para crianças" o autor tinha.

O livro do Strulwwelpeter segue uma fórmula relativamente simples, trazendo histórias com muitas figuras e versos rimados, o que me faz imaginar como seriam rimas em alemão, com aquelas palavras com cinco consoantes seguidas e letras gregas no meio. Em cada uma delas, conta-se uma história a respeito de uma ou mais crianças que acabam fazendo alguma travessura ou malcriação, e no final temos um desfecho bem exagerado e muitas vezes selvagem, para assim tentar convencer o jovem leitor a não fazer a mesma arte para não sofrer as trágicas consequências apresentadas no livro.

Tipo aquelas morais do final dos episódios do He-Man. Mas com um toque bem mais sádico do que o desenho de nosso amigo bombado.


Lembrem-se, crianças! Na hora do banho com seus amiguinhos é muito divertido se abaixar pra pegar o sabonete!

Não resisti a curiosidade e acabei procurando na Internet as histórias do tal livro, você pode ver inclusive nesse link aqui. E realmente as histórias são hilárias de engraçadas, chega ao limiar do absurdo imaginar que alguém pensou que tal livro seria bom para crianças pequenas. A começar pelo sujeito que estampa a capa do livro, que é um garoto que não corta as unhas das mãos e não penteia o cabelo, se tornando assim uma criatura nojenta e grotesca que mais parece um espantalho depois da gripe.


A história seguinte fala do sujeito chamado de Cruel Frederick na versão em inglês. Um moleque pôrra louca, que só faz maldade, indo desde de arrancar fora as asinhas das moscas a matar pássaros, de jogar gatos de escadas (e aparentemente acertá-los na cabeça com um tijolo, como se vê na figura) a encher a garota de chicotadas. Tipo uma criança mimada que acha que pode sair fazendo merda pelos cantos. E que ainda tem um péssimo gosto pra roupas, parecendo um palerminha.


Até o belo dia que ele decide espancar com seu chicote um pobre cachorrinho, só que o canino revida, mordendo o filho da puta. O moleque então fica de cama, dando a entender que a mordida foi tanta que precisou amputar a sua perna, enquanto o cachorro se esbaldava, comendo toda a comida do moleque. A moral parece ser que você pode bater o quanto quiser, mas uma hora aparece alguém mais forte e te enche de porrada.


Se você achou o conto acima meio bobinho e inocente, acho que concordo contigo. Nada de muito mirabolante, mas não precisa ir muito longe pra ver o quanto o autor perde completamente a noção, quando chegamos na história de Harriet e os fósforos. A menina por algum motivo tem uma tara imensa por acender fósforos e os ver queimando, e na primeira oportunidade em que é deixada sozinha em casa, vai lá e começa a se divertir com os fósforos. Confesso que há um pouco de negligência por parte dos pais da pentelha, sabendo que ela tem toda a pinta de piro-maníaca, a última coisa que deveriam fazer seria largar uma caixa de fósforos ali dando sopa. Talvez eles confiassem na menina... Ou pensaram que os gatos da casa iriam convencê-la a não brincar com fogo.


Sim, são pais negligentes sim... Se chegam ao ponto de acreditarem em gatos falantes, é porque também não batem muito bem da cabeça.

Enfim, com toda a brincadeira, não demora pra que Harriet de alguma forma consiga tacar fogo em si mesma! Sério! Vemos a agonia da menina em chamas, enquanto os gatinhos ficam ali só assustados, ao ver a sua dona virando churrasquinho. Aliás, churrasco bem passado, pois no final o que sobra ali é só um montinho de cinzas, enquanto os gatos assoam o nariz vigorosamente, parecendo verdadeiras esguichos de ranho... E perceba que os gatos passaram a mão nos lacinhos da garota, colocando-os em suas caudas. O defunto mal esfriou (com trocadilho, por favor), e já rolou o saque.


A história seguinte é sem dúvida bem controversa, daquelas que se o livro fosse lançado aqui no Brasil atualmente, certamente seria censurada e renderia ao autor um processo. Nela, temos um garoto negro, que por algum motivo fica ali andando com um guarda-chuva verde, e então aparecem três paspalhóides que ficam ali zoando o moleque, dizendo que ele é tão preto como tinta.


Te disse que hoje em dia isso daria processo... Mostra como antigamente não existia muito dessa postura anti-preconceituosa, onde um livro chegava e abertamente dizia algo como "negro como tinta". Faz a gente imaginar outros termos pejorativos que os alemães deviam ter para os afro-descendentes.

Em todo caso, nessa história ainda tem um velho, que parece o Gandalf do Senhor dos Anéis, e que tem trocentos metros de altura por algum motivo, dizendo que os garotos tinham que deixar o negrinho em paz, pois ele não tinha como mudar a sua pele de negro para branco, por mais que quisesse. Sim, é nesse nível, nada de discurso de orgulho de ser negro... Os moleques continuam, e então o coroa faz algo ainda mais absurdo: pega os garotos e os mergulha em um puta vidro de tinta do tamanho do Maracanã...


... e assim os três bostinhas ficaram pretos como tinta, igualzinho ao negrinho.


Eu sinceramente não entendi qual foi a moral dessa história... As outras, tudo bem: o moleque que não tomava banho e ficava asqueroso, o pentelho que batia em todo mundo até encontrar alguém que revidou, a menina que se queimou ao brincar com fósforos... Mas essa, realmente não faz sentido. Tipo, zoe alguém negro e vão te pintar de negro? Acho que podiam passar uma idéia de que quem hoje é preconceituoso pode sofrer preconceito, mas acho que se enrolaram nessa...

Seguindo, a próxima história não envolve crianças, mas sim um caçador com cara de cú sem pestana e um trabuco maior do que ele, que vai caçar, enquanto tem um coelho sacana que fica ali só acompanhando o caçador estúpido.


Uma hora, depois de tanto caminhar, o caçador decide dormir debaixo de uma árvore. Afinal de contas, dá pra imaginar que o caçador é um velho meio cansado, deve ter dado aquela dor nas costas, e nada melhor do que puxar um ronco debaixo de uma árvore. E com isso o patife do coelho vai lá, devagarinho, pra roubar a espingarda e até mesmo os óculos do caçador. Que canalha, ainda pra deixar o velhote todo cegueta!


Eu não sei você... Mas pra mim essa história tá mais parecendo um daqueles muitos desenhos do Pernalonga e do Hortelino...


Enfim... Como acontece nos desenhos da Warner, o caçador se fode, levando chumbo do coelho que usa a espingarda pra atirar nele, chegando a ter um destino bem Looney Tunes ao cair no poço... Com detalhe pra um coelhinho excitado que parece que vai jantar o coitado do caçador e uma senhora que quase leva uma bala perdida lá no fundo. Também não faço idéia de que diabos é a moral dessa história...


O próximo conto ultrapassa os limites do tosco e absurdo. Somos apresentados ao Conrad, um moleque que tem uma tara por ficar chupando o seu dedo, talvez um dos primeiros indicativos de que no futuro venha a começar a passar gel no cabelo, vestir calças coloridas e cantar os sucessos da Gloria Gaynor. Sua mãe, preocupada com filho e não querendo que ele siga uma vida de pederastia, fala que ele não pode ficar chupando os dedos, ou então vai aparecer um sujeito (chamado ridiculamente de "o alfaiate alto") pra cortar os polegares dele fora.


A mãe vai lá na rua pra pegar a grana do Bolsa Família, e o nosso amiguinho Conrad não se aguenta, precisa colocar algum objeto roliço na boca e começa o chup-chups...


Fala sério... Com esse cabelinho de viado, essa roupinha amarela com sapatinho de salto e essa pose de "ui, cansei", dá pra ver que se Conrad não é viado está deixando passar uma ótima oportunidade. E pelas barbas do camarão, que diabos é aquela cabeça ali no alto?

Eis que então brota do nada um maluco com uma tesoura grande pra caralho, e que também tem uma pinta de quem gosta de dar marcha a ré no quibe, e corta fora os polegares do moleque. Vai me explicar uma merda dessas, que absurdo! Aparece um lunático do nada, que fica ali espreitando nas casas por crianças chupando o dedo, só pra decepá-los? Sei lá, talvez na Alemanha do século XIX tava cheio de maluco nas ruas.


A mãe chega, e tá lá o nosso amiguinho, com a maior cara de bunda, e ainda leva um esporro da mãe. Bem bizarra a história, nada de moral aqui, a idéia já vai mais pra política do medo, consigo ver os pais lendo a história pros seus pimpolhos e dizendo que se eles chuparem o dedo vão ter o mesmo destino do bostinha do Conrad...


É numa linha similar, de ameaça e terror, que segue o livro com a próxima história. Conhecemos o Augustus, que é um moleque gordinho e também com fortes tendências homossexuais, com esse cabelinho "vem cá meu puto" e sapatinhos vermelhos. O rolhinha de poço, como é de se imaginar, é um bom garfo, mas do nada ele despiroca e fala que não quer mais tomar sopa, e começa a dançar que nem uma bichinha.


Bom, não sei explicar o porque desse ódio repentino por sopa, imaginando que estamos na Alemanha deve ser um caldo de repolho, que tem pinta de ser meio intragável mesmo... E então os dias vão passando, e o molequinho vai emagrecendo. Mas emagrecendo MESMO, vai ficando fininho, fininho, chega uma hora que ele parece aqueles bonecos de pauzinho que todo mundo sabe desenhar. Que ridículo!


O desfecho é então bem macabro, fiz questão de copiar também o texto. Depois de cinco dias sem tomar sopa, o garoto morre. Isso mesmo, quer ameaça mais pesada? Passa aquela mensagem que se você for malcriado e não comer suas refeições, não vai passar mal ou ficar de castigo... vai é morrer! Puta que pariu, sutil e delicado como um soco inglês. E detalhe pra piadinha infame, parece que os pais como última sacaneada colocaram um pote de sopa por cima de seu túmulo.


Realmente tem umas histórias bem absurdas de doidas. A seguinte nos leva a um jantar de família, e a vítima... ou melhor, a criança da vez é Philip. O pestinha, que também tem uma pinta de boiola com esse topete, tem um péssimo hábito de ficar se apoiando nas pernas de trás de sua cadeira, enquanto faz uma cara como se estivesse liberando um churro de seu orifício reto-furicular. Seus pais lhe dão o maior esporro, que aquilo era coisa de babaca. Embora vendo o naipe dos dois, dá pra ver porque nasceu um acéfalo como esse pentelho.


Essa certamente era fácil de se imaginar, típica do Mr.Bean: não demora pra que Philip perca o equilíbrio e despenque feito um saco de batata. E logicamente ele tenta agarrar a primeira coisa que está ao seu alcance, que é a toalha da mesa, trazendo tudo pra cima dela. A mãe só olha com cara de bunda, pensando nas horas em que passou na cozinha preparando a bóia, que está prestes a ser arruinada, enquanto o pai tenta em vão salvar a travessa de carne moída. Embora que, por essa imagem, parece que ele queria era salvar a garrafa de pinga.


Philip se fudeu mesmo... Imaginando o estilo do livro, é de se imaginar que uma faca o tenha acertado bem no meio dos cornos, e a panela tenha despejado a comida fervendo em seu saco. A mãe, míope que nem um morcego, fica ainda olhando pra mesa, enquanto o pai dá um chilique, demonstrando de onde vem a bichice na família.


Pena que Philip não tinha a cadeira de 6 pernas do Homer...


Seguimos adiante, e o título da próxima historieta seria algo como "Joãozinho Cabeça de Vento". Não se trata do Joãozinho das piadas infames que conhecemos, com suas tiradas sacanas para seus pais, professores e amigos, mas sim um moleque que parece que se penteou na frente de uma turbina dum avião, que tem a curiosa mania de andar olhando pra cima.


Logo na primeira ele acaba sendo derrubado por um cachorro, ficando de barriga pro ar, que nem um panaca.


Mesmo depois de levar um tombaço, o Joãozinho não aprende, continuando a andar olhando pra cima. O que será que tem de tão interessante no céu assim, seu babaca? O pior de tudo é que agora ele caminha na direção do rio, como ele consegue ser tão besta assim, sem perceber que vai cair na água. Pior de tudo é esse passo de gazela, erguendo a perna que nem uma bailarina. Tão ridículo que os peixes ali no rio ficam sacaneando ele.


Não seu outra, o moleque vai lá e mergulha de cabeça. Espero que seja raso, pra assim ele ter quebrado o crânio no fundo...


Mas dois sujeitos aparecem lá, vendo o imbecil boiando na água, e decidem ajudá-lo. Um deles pega um gancho de pescaria pra arrancar o Joãozinho da água, enquanto o outro pega um cabo de vassoura pra violar sua inocência. Tudo isso diante dos olhos dos três peixes, rindo à toa, principalmente ao ver a pasta do moleque sendo levada pela correnteza.


Qual é essa moral? Tipo, olhe por onde anda, ou então você será impalado na bunda por um marinheiro barbudo enquanto é zoado por alguns peixes?

Cara, já estou me enchendo desse livro, tanto que a última história vou resumir a uma figura só, até porque é bem bestinha: fala de um garoto andando com o seu guarda-chuva em uma tempestade, até a ventania levar ele embora, pra nunca mais ser visto.


Impossível não se lembrar do padre dos balões...


Enfim, realmente é um livro bem tosco e bizarro. Fico imaginando toda uma geração de crianças sendo aterrorizadas por essas histórias, em especial as mais violentas e cruéis, como do gordinho que não tomava sopa e da menina queimada pelos fósforos. Podia ser enredo prum filme B ou mesmo pras páginas da revista Mad, de tão sem noção é absurdas que são essas histórias. Pelo menos, temos que admitir que é uma literatura que ensina alguma coisa de útil, em vez de toda uma trupe de cretinos aboiolados como Barney ou Teletubbies, que transformaram as crianças de hoje em mariquinhas de gelzinho no cabelo e pinta de viado...

2 comentários:

Soull Vanns Neves disse...

very nice! obrigado por continuar postando texugo!

Haitou_88 disse...

KKKK que post loko, as histórias dos Grimm seguiam essa linha de ensinar pelo medo, porém esse livro chega ao absurdo mesmo.