sábado, 16 de maio de 2015

Perdoando Ladrão

Às vezes fico me perguntando como que eu sou tão diferente da maioria das pessoas. Vejo a minha forma de pensar, as minhas opiniões em relação a muitas coisas que acontecem, e percebo como eu acabo sendo quase sempre "do contra", remando contra a maré da maioria. Pior de tudo é que não faço isso por sacanagem não, não se trata de uma vontade de ser contrário ao que quase todo mundo pensa só pra ser contrário, vejo que realmente eu devo ter uma percepção do mundo muito diferente. Muitos certamente dizem que eu sou anormal... Mas eu penso que não estou tão errado assim.

Tudo isso é porque eu vou comentar uma notícia que tomou as manchetes nesses últimos dias,como você pode ver aqui ou aqui. Um sujeito lá do Distrito Federal estava fazendo compras no mercado, e na hora de pagar a conta viu que havia se confundido em relação à data em que receberia o dinheiro do Bolsa Família, estando com menos de dez reais no bolso. Com isso, ele acabou escondendo 2 quilos de carne na bolsa. Pelas câmeras de segurança o furto foi descoberto, o dono chamou a polícia e o cidadão foi levado pra delegacia.


Até aí, você pode pensar que não é nada demais, certamente delitos como esse ocorrem praticamente todo dia. O detalhe que levou essa história para os jornais é que, uma vez na delegacia, o homem disse que estava desempregado e sem comer há dois dias, uma vez que havia deixado a pouca comida que tinha em casa para seu filho se alimentar. Com isso, os policiais se sensibilizaram com sua história, e assim alguns deles se juntaram pra fazer uma vaquinha para pagar a sua fiança, e depois foram com ele em um mercado, onde fizeram uma mega compra do mês para o sujeito e sua família.

Que lindo, não? Você olha ao redor e vê muitas pessoas se sensibilizando com essa história, que parece filme da Disney. Dá pra imaginar senhoras de idade com os olhos lacrimejando de comoção, religiosos dizendo que os policiais estavam sendo guiados por Jesus, pessoas de todas as idades comentando sobre como é bonito ver as pessoas terem compaixão pelo pobre sujeito que só queria alimentar a sua família.


Bom... chega então a hora que todo mundo vai pedir o meu pescoço...

Tudo bem que o pobre coitado não é um bandido, está longe de ser um criminoso como um Fernandinho Beira-Mar ou a quadrilha do Mensalão ou Lava-Jato. É um sujeito que fraquejou diante de uma situação de desespero, ao ver que não conseguiria levar comida para sua família. Não questiono isso, tenho a consciência de que um certo ponto de vista o cara tinha uma boa intenção...

Acontece que de boa intenção o inferno tá cheio...

Pode parecer uma comparação besta, mas é como quando o zagueiro chega e mete a mão na bola dentro da área e o juiz marca pênalti. Nunca vai ser a intenção do jogador colocar a mão na bola, lógico. Mas a bola foi na mão, não interessa, é pênalti. Não tem o que discutir. Logicamente, estou desconsiderando aqui a opinião de comentaristas que, quando presenciam seu time amado cometendo uma penalidade máxima, vem com um papo de que "ah, mas ele não tinha a intenção, não precisava ter marcado pênalti".


É a mesma coisa que eu penso que termos de crime. Me surpreende, e até me preocupa, como que a sociedade acaba tendo uma postura assim tão condescendente quanto a delitos em certas situações, olhando muito mais para o autor do delito, suas características e suas intenções do que para o ato em si. Em outras palavras, pelo fato de que o sujeito estava desempregado e queria alimentar a sua família, por definição ele passou a ser visto como a vítima da história, como a parte merecedora da compaixão e compreensão da sociedade, em vez do dono do mercado que sera lesado pelo furto. Talvez até tenha aparecido alguém criticando o dono do mercado, dizendo que ele é um desalmado por denunciar um pobre pai de família que só roubou aquela carne por desespero, para que sua família tivesse o que comer.

Vamos imaginar que fosse eu, que tivesse chegado lá no mercado e furtado dois quilos de carne, mas as câmeras me flagrassem e eu fosse preso. Será que a reação seria a mesma? Certamente não. Seria colocado em uma cela, e se não tivesse dinheiro para pagar a fiança os guardas não fariam uma vaquinha pra me soltar. Ia mofar na cadeia, até que alguém me pagasse a fiança, ficaria com o nome sujo na praça. A sociedade me veria como um pária, um cafajeste roubando comida de um mercado, provavelmente alguns estabelecimentos colocariam meu retrato na porta e não me deixariam entrar... E todo mundo diria que isso é a justiça sendo aplicada.


Mesmo delito... Mas a diferença é que eu não teria contado uma história triste. Mesmo delito e penas diferentes, isso é justiça?

Eu acho isso errado. Eu entendo que as pessoas devem ser julgadas pelos seus atos, e não por outros fatores externos, por mais que tente-se comprovar alguma justificativa. É a mesma razão que eu acho errado que se considere que somente os negros podem ser vítimas de racismo, o preconceito racial pode ocorrer contra qualquer um, mesmo brancos; é pelo mesmo motivo que acho absurdo o tal crime de feminicídio que criaram (como eu falei aqui), a pena por matar uma pessoa deve ser a mesma, não importando se ela é homem ou mulher; é por isso também que acho inaceitável o "pobrismo" de nosso país, que assume que o pobre, o desempregado e/ou desalojado, o morador de favela, entre tantos outros grupos menos favorecidos, é sempre de bem, é sempre honesto, justo e trabalhador, como se ser miserável fosse um atestado de pureza e decência. Crimes iguais, punições iguais. Um ou outro grupo não pode ser protegido por algum motivo qualquer, parte da sociedade não pode ter um tratamento especial só por conta da cor de sua pele, sexo ou renda. Isso só incentiva ainda mais as diferenças.

Bom, eu sei que nessa altura deve ter muita gente me xingando, dizendo que eu sou um filho da puta sem coração, criticando minha postura contrária ao ocorrido. Muito provavelmente deve ter gente torcendo pra que eu perca meu emprego e passe fome para passar pela mesma necessidade do sujeito da história. Mas eu tenho direito ao meu ponto de vista (ou não?), e eu imagino que não falei nada de errado. Leis estão aí para serem cumpridas, e se na lei há lá uma punição para quem comete um crime, essa punição deve ser aplicada, não importa quem seja. Se começa com esse papo de "veja bem", de querer buscar quais são as intenções por trás dos atos, de começar a arrumar justificativas... bom, então não podemos reclamar dos políticos que roubam de maneira indecente, que desviam bilhões ao seu bel-prazer. Então ninguém pode achar errado quando um certo ex-presidente de língua presa e nove dedos disse que "não sabia"...


Na minha concepção, justiça deve ser igual para todos. Pode parecer meio severo demais, mas é o que tem que ser. Do contrário, sempre se arruma alguma brecha, algum motivo para que a pessoa tenha uma pena mais branda ou mesmo seja inocentado. Aí não precisa de lei, não precisa de justiça, é só cada um arrumar uma "desculpa" pra se safar. Sei que é necessário o bom senso muitas vezes, mas não podemos confundir bom senso com tolerância exagerada. Pensa só o exemplo que esse sujeito deu para seu próprio filho: mesmo tendo as suas razões, ele comete um crime, roubando comida de um mercado. E não aconteceu nada com ele, muito pelo contrário, ele foi até mesmo beneficiado por ter cometido esse ato impróprio. Passa a imagem de que o crime compensa, de que se você tiver um bom motivo você pode fazer qualquer coisa. Amanhã o filho dele vai achar que pode roubar um biscoito de um mercado, por exemplo, só porque está com fome e o pai não tem como comprar aquele biscoito pra ele, e achando que está tudo bem. Não estou dizendo que o cara é um criminoso de alta periculosidade e vai incentivar seu filho a cometer crimes; mas criança é que nem esponja, absorve tudo que os adultos fazem, especialmente os pais. É que nem o garoto que vê o pai dirigindo e atravessando o sinal vermelho, dando a desculpa que está com pressa, que não tem problema. Esse garoto vai crescer imaginando que não tem problema em ultrapassar um sinal vermelho se você estiver com pressa, ou que quando se tornar adulto não precisa obedecer o sinal fechado.

E assim que começa... Começa com coisas simples, como jogar lixo na rua, passar o sinal vermelho, furar fila de banco, colar na prova, roubar comida do mercado... A origem da impunidade, que faz com que bandidos perigosos de verdade sejam colocados nas ruas depois de cumprir parte de sua pena ou lhes dê uma liberdade "temporária" nos indultos de dia das Mães ou Natal, que faz com que os "di menor" cometam os crimes mais hediondos e fiquem com ficha limpa aos 18 anos, que faz com que políticos que foram julgados culpados de grandes esquemas de corrupção e que acabam soltos, pra serem eleitos para roubarem mais uma vez... a origem dessa impunidade está aí, nessas pequenas coisas... Nesses pequenos delitos que são perdoados, que são ignorados...

Antes que venham a colocar palavras na minha boca, eu não estou dizendo que o sujeito deveria fritar numa cadeira elétrica por ter roubado dois quilos de carne. Vamos guardar as proporções, ninguém está dizendo que as punições aqui tem que ser no padrão norte-coreano, onde um militar que cochilou durante uma reunião foi executado por um míssil anti-aéreo.


Mas que tem que ter alguma pena... Isso tem que ter. Por exemplo, numa situação dessas, o cara roubou carne pra alimentar a família, é um pobre coitado que não tem emprego. Eu penso que o que poderia ser feito é estimar mais ou menos o prejuízo que ele deu, contando com a sua fiança, e então colocar ele pra trabalhar, por exemplo, duas semanas. Algo como um trabalho forçado, em que ele pague as suas dívidas com a sociedade, após esse período ele seria liberado, não devendo mais nada à justiça.

Também não precisam pensar bobagem, não estou dizendo pro cara ficar ali com uma bola de ferro no tornozelo quebrando pedras, como no desenho do Pica-Pau. Digo alguma atividade que ele possa executar. Por exemplo, se ele conhece de construção, coloca ele pra trabalhar numa obra da prefeitura. Se sabe cozinhar, que vá ajudar na cozinha de uma escola pública, preparando a merenda das crianças. Arruma-se alguma coisa, nem que seja trabalhar de gari varrendo as ruas da cidade. Que até se dê pra ele um vale-transporte e um vale-refeição, das oito às cinco ele teria essa obrigação de trabalhar para a sociedade. Não seria algo justo?

Enfim... Essa é a minha opinião. Sei que muitos pensam diferente, sei que vou ser chamado de tudo que é coisa. Mas é minha visão, justiça precisa ser justa. Falam tanto na igualdade das pessoas, então que comecemos a enxergar as pessoas como iguais, responsabilizando-as da mesma maneira quando cometem os mesmos delitos. Se vamos continuar com essa postura de perdoar aqueles que têm uma história comovente pra contar o que fazem parte deste ou daquele grupo da sociedade, então que não venham ficar marchando em protestos contra a corrupção e exigindo que a justiça puna os outros.

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse cara aí roubou num mercado na cidade que eu moro aqui no Df!
Muito boa a matéria, concordo com o que você escreveu, eu lembro que passou no jornal esse cara sendo entrevistado, a reportagem com o clima mais feliz do mundo, mas quando acabarem os alimentos que o cara recebeu? O cara vai continuar na situação que ele estava