terça-feira, 6 de maio de 2014

Vida Pessoal x Vida Profissional

Eu estava ultimamente de férias, um bom período para relaxar e me livrar do trabalho. Nada como durante um mês poder acordar a hora que eu quiser, ficar livre das ligações e e-mails do serviço, fugir do trauma de pegar transporte público na hora do rush e não ter que participar daquelas reuniões cansativas que não decidem nada e só tomam tempo. Férias é a melhor coisa que se tem, e confesso que mesmo após ter acabado de voltar já estou pensando em quando vou poder sair de férias de novo... Ou pelo menos quando será o próximo feriado prolongado.


Cada uma das minhas férias tem as suas peculiaridades, nunca uma é igual a outra. Mas tem uma coisa que é comum a todas elas: eu não mexo em nada do trabalho, esqueço completamente de tudo da minha vida profissional. Chego até ao ponto de preferir nessas situações sair com amigos de outras épocas, como da faculdade ou colégio, evitando ao máximo os colegas de trabalho para que não chegue aquela hora em que o assunto será alguma coisa do serviço. Férias pra mim é isso, é um momento para você se desligar do trabalho por completo. Se não, não seria férias!

Entretanto, foi engraçado quando eu retornei das minhas férias em uma certa oportunidade, não nessa última, mas recordar é viver. A maioria do pessoal veio dar as boas-vindas, perguntar o que eu tinha feito e etc, algo natural quando você fica fora algum tempo, embora sempre tem aquelas pessoas que parecem fazer a questão de te ignorar. Depois de alguns minutos, estava na minha mesa me preparando psicologicamente para ver a montanha de e-mails que havia chegado nas últimas semanas, e um supervisor do escritório veio falar comigo, me chamando para a sala dele.


Claro que nessas horas bate aquela sensação de "fudeu", como se eu fosse ser despedido. 

Sim, eu já vi uma vez isso acontecer em meu antigo emprego, o cara saiu de férias e quando voltou foi mandado embora, já tinha até um sujeito entrevistado e contratado para ficar no lugar dele. Deve ser uma dessas táticas do agressivo empreendedorismo moderno, como aquela que sugere que a demissão seja feita na sexta-feira no final do dia, teoricamente para "proteger" os demais funcionários de qualquer conversa de corredor, mas que no final acaba causando também um impacto maior ao funcionário que é mandando embora, que terá que amargurar seu fim de semana sabendo que está desempregado.

Enfim, o supervisor começou perguntando como tinham sido as férias, aquele falso interesse na minha vida pessoal para quebrar o gelo. Aí ele me perguntou se eu tinha visto os meus e-mails do trabalho durante as minhas férias.


Dafuq?!

E-mail de trabalho durante as férias? Naquela hora eu certamente não entendi nada, essa expressão não faz o menor sentido pra mim. Na boa, "e-mail de trabalho nas férias" é tão absurdo e inconsistente quanto dizer "faz calor no Pólo Norte" ou "petista honesto". Respondi prontamente que não, que não vi e-mail nenhum, pois afinal de contas estava de férias.

Aí o supervisor veio e disse que sabia disso, pois tinha gente que havia mandado mensagens para mim, algumas delas urgentes, e eu não havia respondido. Comentou também que sabia que eu tinha deixado meu celular da empresa desligado, pois todas as vezes que alguém tentou me ligar caía na caixa postal. Ele até pediu para eu ligar o celular, o que eu ainda não havia feito (afinal de contas, havia acabado de chegar no escritório, e eu costumo deixá-lo desligado fora do horário de serviço), e constatei ali o aviso de mais de cinquenta ligações perdidas. Cinquenta!

Ele então começou um longo discurso, chamando a minha atenção para a postura pouco profissional da minha parte, que era inaceitável eu ficar completamente offline durante as minhas férias, que coisas importantes precisavam ser decididas e dependiam de alguma ação ou opinião minha, e que atrasos e problemas ocorreram devido à minha ausência. Não estava pedindo para eu ficar 100% à disposição, porque afinal eram as minhas férias (sim, ele disse isso!), mas pelo menos deveria estar olhando os e-mails ao final de cada dia e deixando o celular da empresa ligado para qualquer emergência. Resumindo, que eu tinha que ficar à disposição para o que fosse necessário durante a minha folga.


Disse inclusive que era por isso que ele particularmente era contra férias de 30 dias, mesmo elas tendo sido aprovadas pelo departamento pessoal. Normalmente na minha empresa as férias são autorizadas em dois períodos, um de 10 dias e outro de 20 ou então em dois períodos de 15 dias cada, embora muitos gerentes incentivem que o funcionário venda parte de suas férias, minimizando assim o seu tempo fora do escritório. Inclusive ele veio dizendo que devido à minha importância na empresa de que ele gostaria que eu nunca mais tirasse 30 dias seguidos de férias.

Bom, pelo menos nessa hora deu a entender que eu não estava levando um chute no traseiro e sendo mandando embora...

Enfim, o monólogo continuou por mais alguns minutos, fiquei quieto pois esse supervisor é daquelas pessoas que se você interrompe para argumentar alguma coisa ou expor sua opinião ela te ignora completamente e volta para o início da frase, falando as exatas mesmas palavras com as mesmas vírgulas. Continuou falando outras coisas, como dizendo que é um sinal de responsabilidade continuar focado no trabalho durante os períodos de descanso como férias, feriados e fins de semana, que eu estava assim sendo um mau exemplo para os mais novos, blá blá blá...


Até parece que quem trabalha nas horas vagas fica assim sorridente

Nessa hora eu estava ali puto da vida, imaginando o quanto era absurda aquela idéia. Mau exemplo? Depois que ele terminou e perguntou se tinha alguma coisa a dizer, eu respondi que entendia, mas não concordava com tudo aquilo, e comecei a argumentar uma série de coisas, algumas delas que escrevo aqui também, certamente não com as mesmas palavras mas com a idéia geral.

Eu discordo totalmente dessa postura workaholic de hoje. Já escrevi sobre isso aqui algum tempo atrás, inclusive com alguém comentando que hoje é assim mesmo, tem que ficar online ou corre o risco de ser despedido. Não, não pode. Tem que ficar online pôrra nenhuma. Não é pra ser assim, principalmente quando se trata de férias. Já não basta o trabalho muitas vezes exigir que a gente almoce correndo, tendo que comer qualquer bobagem em menos tempo do que a uma hora de almoço à qual temos direito? Já não bastam as reuniões convenientemente agendadas para às quatro e meia da tarde, segurando todos depois do horário? Já não bastam as viagens de serviço sempre agendadas em horários onde deveríamos estar em casa, para não tirar tempo de labuta? Que deixem pelo menos as nossas férias em paz!

Da mesma forma que eu escrevi nessa postagem que mencionei, eu apresentei para o supervisor a minha postura de sempre procurar separar as coisas. Eu evito ao máximo misturar minha vida profissional com minha vida pessoal, procuro não misturar casa e escritório. Faço tudo que posso para minimizar o impacto da minha vida própria, das minhas coisas como meu lazer, minha família, meus amigos e até minha saúde na vida do escritório, e espero que o serviço aja da mesma forma. Embora sabemos bem que a empresa acaba sempre exigindo a compreensão do funcionário, sem compreender o lado do mesmo.


É como em uma situação, que eu inclusive comentei nesse dia. Imagina se eu tenho um médico agendado para, sei lá, quatro da tarde. Aí eu teria que sair umas três horas para chegar com antecedência lá, e com isso se vão duas horas de trabalho. Essas duas horas eu vou ter que repor de alguma forma, certo? Seja consumindo um banco de horas, caso a empresa trabalhe com essa política, ou ficando até mais tarde um pouco durante alguns dias. Ou, dependendo de como for a política de pagamento, sendo descontado de duas horas da folha. Afinal de contas, a empresa foi "lesada", saiu no prejuízo, e não vai querer pagar essas horas onde eu estava resolvendo um assunto particular, não é mesmo?

Agora, se chega uma situação como essa de férias, vamos supor que eu tivesse sido um funcionário mais "correto" e tivesse dedicado, digamos, uma hora por dia para ver e responder alguns e-mails. Suponha que em férias de um mês tenha vinte dias úteis, então eu teria usado vinte horas de minhas férias, o equivalente a dois dias e meio de trabalho, para fazer coisas do serviço. 

Me diga o que a empresa vai dizer se eu argumentar que ela teria que me dar esses dois dias e meio de descanso, para compensar o trabalhado nas férias...


Duvido que ia dar! Vai ficar por isso mesmo, nada será compensado. No mínimo vão questionar o tempo, dizer que nada prova que eu fiquei esse tempo todo trabalhando (essa é a conveniência de se ter o relógio de ponto só no escritório), podem até chegar ao cúmulo de dizer que se eu trabalhei nas minhas férias foi porque eu quis, mesmo depois de vir com esse papo que seria sinal de profissionalismo que eu trabalhasse nesse período. E ficaria por isso mesmo, as horas de suas férias que foram usadas para o trabalho jamais seriam compensadas ou sequer pagas. Um ótimo negócio para a empresa, lógico, pois afinal de contas pôde contar com horas gratuitas de um funcionário.

Sou totalmente contra essa sobreposição da vida profissional sobre a vida pessoal, e vice-versa. Embora a primeira seja a que ocorre com mais frequência. Essa é uma das razões pelas quais eu sou totalmente contra o home-office. Cara, essas duas palavras nunca poderiam andar juntas. Não funciona, pois esse é um primeiro passo para que a vida profissional invada a sua vida pessoal.


Pense comigo, ao trabalhar de casa, apesar de haver algumas vantagens como evitar o trânsito, poder ficar mais à vontade (o sujeito pode se quiser trabalhar de cueca) e evitar as chatices da vida do escritório, é na minha opinião um grande risco para que você trabalhe mais do que deveria. Dependendo da atividade de seu trabalho, você pode ficar ali imerso e quando der conta já trabalhou mais do que deveria. Quantas vezes não estamos na Internet por lazer, e então nos damos conta da hora que passou, damos aquele salto exclamando "caramba, já são duas da manhã?!". Corremos o mesmo risco ao trabalhar de casa.

Só pelo fato do deslocamento você pode acabar trabalhando mais: pense só, imagine que você sai do trabalho às cinco e leva uma hora pra chegar em casa, logo sua vida pessoal começa às seis horas. Há um risco muito grande de que, acostumado a iniciar sua vida particular nesse horário, você acabe trabalhando durante aquele horário em que você está se deslocando! Sim, acontece, já aconteceu comigo uma vez. Por mais que as horas de deslocamento não sejam horas laborais, não sejam horas de interesse para a empresa, elas constituem horas dedicadas ao trabalho.

Claro que o home-office possui outros riscos também, estes que podem ser prejudiciais ao trabalho em si. Estando em casa, por mais que você se isole em um escritório montado para esse fim, por mais que você fique concentrado no trabalho, é praticamente impossível que a sua vida de casa não venha a interferir. Vai ter horas que vai tocar o telefone com algum atendente de telemarketing chato, vai tocar a campainha com um vizinho aporrinhando tua paciência. Se você morar com mais alguém, como esposa ou marido, ou mesmo filhos, certamente vão ter horas que eles vão lá perguntar alguma coisa, como a mulher reclamando que você deixou a tampa do vaso levantada ou o filho pedindo pra você ajudar no dever de casa. E sem falar nas distrações que temos atualmente... Afinal de contas, para home-office você certamente estará num computador, e a tentação para dar uma espiada no Facebook, pra ver as notícias do time de futebol ou mesmo admirar algumas fotinhos de mulher pelada, será constante. E tudo isso sem dúvida vai atrapalhar o serviço.


Outra do Oatmeal, veja aqui na íntegra

Um dos grandes problemas é que na relação empresa-funcionário, o último sempre está em posição de relativa submissão à primeira, as grandes corporações (e mesmo as pequenas) têm mais força do que um mero trabalhador CLT. E para a empresa, nessa situações onde possa haver algum tipo de conflito entre a vida profissional e pessoal de um de seus funcionários, ela sempre vai adotar uma postura de proteger os seus interesses, não querendo nunca ficar em desvantagem, mas não tendo o pudor de pedir a colaboração do funcionário para que ele ceda parte de tempo livre em prol da empresa.

Como eu comentei ali em cima, para que uma pessoa use parte de suas horas de trabalho para outros fins, há uma grande dificuldade, vários embrolhos para que você consiga uma autorização, mesmo que seja algo relativamente urgente ou crítico. Acredita que já passei por um lugar onde um colega de trabalho teve horas descontadas pois ele teve que sair correndo do serviço para ir no hospital, pois sua esposa tinha sofrido um acidente de carro? Estou falando sério, claro que não são todas as empresas que têm essa postura fria como um iceberg, mas digo que todas possuem certas ressalvas quanto ao funcionário chegar mais tarde ou sair mais cedo por algum motivo particular. Somente se sua falta for devidamente justificada, tipo com um atestado médico ou coisa parecida, é que você não perderia essas horas, sem isso pode apostar que você terá que compensar de outra forma.


Essa tirinha é do site Pagando o Pato, muito legal

Mas no outro lado isso não ocorre... A empresa costuma se achar no direito de envolver o funcionário com atividades de trabalho fora do horário de serviço, tomando horas que deveriam ser de seu lazer e descanso. Já presenciei várias dessas durante a minha vida profissional, como quando precisam te mandar para alguma outra cidade: são vôos realizados bem de manhã cedo para fazer a ponte-aérea e estar lá para a reunião antes das nove, ou então aqueles que são agendados para depois das oito da noite por "segurança", pois nunca se sabe como vai estar o trânsito no caminho do aeroporto. Piores são aquelas situações onde você precisa estar segunda de manhã bem cedinho em seu compromisso, e te mandam viajar no domingo, ou então é aquele compromisso de sexta que acaba tarde e só tem como você retornar no sábado de manhã. Horas de seu tempo livre, de seu fim de semana, nas quais você deveria estar descansando, fazendo as suas coisas, se divertindo e passando tempo com a família e amigos, que muitas vezes sequer são pagas como hora extra.


Uma das mais bizarras foi em uma empresa onde trabalhei, onde certa vez tínhamos um supervisor que tinha um péssimo hábito, algo de me deixar extremamente puto: eram os almoços-reunião. Uma vez por semana o cara tinha a mania de agendar uma reunião que se passava na hora do almoço, tipicamente sobre algum assunto interno, algo que não tinha assim um impacto tão grande nas atividades gerais. Não queria dizer entretanto que todo mundo ia bancar o faquir naquele dia e passar fome, pois ele pedia que fosse entregue comida ali no escritório para que todos almoçassem. Cabia ao chefe definir também qual seria o menu, tipo certa semana ia ser comida chinesa (a mais comum de todas), tinha dias que era comida árabe, e por aí ia. Cada um escolhia dentre a culinária e o restaurante definido pelo chefe o que iria comer, e ao meio-dia eram todos ali sentados na mesa de reunião, com caixas de papelão e talheres plásticos, resolvendo assuntos ali do trabalho.


Puta merda, pra mim o almoço é mais uma das horas de lazer, sem trabalho! Eu já fico de ovo virado quando vou almoçar com o pessoal do serviço e começam a surgir os assuntos de trabalho na mesa, é uma das razões pelas quais eu prefiro muitas vezes almoçar sozinho (a outra é pra não me fuder novamente na hora da conta, como contei aqui). É aquela uma horinha no meio do expediente que é fundamental pra você descansar os neurônios, pra você relaxar a sua cabeça... O Dilbert retrata bem minha opinião quanto a isso.


E aí o cara inventa de fazer uma reunião na hora do almoço? Claro que ninguém era liberado pra sair às quatro da tarde, dessa forma no final era um dia com nove horas de expediente. Mas que logicamente só ganhávamos por oito, pois a uma hora de almoço não contava, ainda mais por ser contra a lei trabalhista. Ainda bem que esse workaholic não durou muito...

O pior de tudo é que hoje em dia essa é uma tendência mesmo, as pessoas estão ficando cada vez mais e mais vidradas no trabalho, o que dá munição para as empresas se sentirem confortáveis com esse tipo de "exploração". Existem pessoas que são mesmo fanáticas por trabalho, que por conta própria se dedicam mais do que deveriam oficialmente, não se incomodando em abrir mão de suas horas particulares pela empresa. Sempre existiu gente assim, parecem que sentem verdadeiros orgasmos ao estar lidando com o serviço. Fico às vezes me perguntando se esse tipo de gente tem vida, se eles têm algum tipo de lazer ou distração fora do ambiente de trabalho... Tipo, o cara que não pára de pensar no trabalho, a ponto de mal comparecer com a esposa para um pouco de diversão marital debaixo dos cobertores.


E chegam muitas vezes ao ponto do ridículo! Tinha um colega de trabalho que ficava aqui no Rio de Janeiro, e que era um verdadeiro tarado por trabalho, desses que sempre estava falando de alguma coisa relacionada ao serviço, nunca saía da boca desse animal nada relacionado a futebol, filmes ou outros assuntos diversos. Esse era tão vidrado no trabalho, que ele fazia algo que eu simplesmente não acreditava: arrumava viagens a serviço em feriados regionais! Tipo assim, dia 20 de janeiro é feriado só aqui no Rio, feriado de São Sebastião. E nesse dia ele sempre arrumava alguma reunião em São Paulo ou outra cidade! Cara, que absurdo!

Outra coisa que colabora com esse conflito, igualmente incentivado pelos workaholics, é o grande avanço da tecnologia e dos meios de comunicação. Laptops, tablets, smartphones, tudo isso aí nos conecta com nossos amigos e familiares, mas também acaba sendo usado para nos manter ligados no trabalho. Graças a esses aparelhinhos, não precisamos esperar até chegarmos no serviço para ler e responder um e-mail, podemos agora receber uma ligação enquanto estamos na hora do almoço. Causa aquela disponibilidade eterna, em qualquer momento você pode ser encontrado por alguém do trabalho ou por um cliente, e sempre será em um momento inoportuno, quando você está ocupado com alguma outra coisa ou mesmo quando você está em seu tempo livre.


As pessoas hoje em dia estão hiper-conectadas, e isso torna os workaholics ainda mais ansiosos, pois isso permite que eles trabalhem em qualquer hora e em qualquer lugar. Parece não perceberem que a sociedade chegou até onde chegou sem celulares e banda larga, não conseguem aceitar que uma resposta demora menos que alguns segundos. Já presenciei o ridículo de ter recebido um e-mail de um colega de trabalho, pedindo alguma coisa, mas eu estava ocupado. Passados CINCO MINUTOS que a mensagem chegou, o filho da mãe foi até a minha mesa para perguntar se eu tinha visto o maldito e-mail, pois ele não tinha recebido resposta ainda! Cinco pôrras de minutos!


E essa portabilidade também chega para invadir a nossa vida privada, pois as empresas pensam que só porque você tem um celular da empresa, você deve atendê-lo em qualquer hora, mesmo que já esteja fora do expediente. Tem lugares aí que reclamam do funcionário que usa o telefone fixo do escritório para ligar para casa, para avisar que vai chegar mais tarde, ou que acham inconveniente que as pessoas atendam suas ligações em seus celulares pessoais quando estão no trabalho; mas que acham que você deve estar com o celular da empresa sempre ligado, mesmo de noite ou nos fins de semana, pronto para atender se for necessário.

Onde eu trabalho cismaram de me arrumar um celular da empresa, aparelhinho do mais simples possível, mas que sempre desligo quando não estou em serviço. Antes de chegar no trabalho, mantenho ele desligado no bolso, afinal de contas ainda não bati a merda do cartão ponto; na hora do almoço, não faço questão de levá-lo comigo, largando ele em cima da mesa; e quando estou para ir embora, faço o mesmo ritual sempre que consiste em trancar meu gaveteiro, desligar meu computador, desligar meu celular da empresa, bater o ponto e ir embora. E, claro, nos fins de semana, o bichinho fica lá quietinho, dormindo dentro da minha pasta.

Deixa eu contar outra: me recordo quando certa vez um ex-chefe meu chegou pra mim e disse que estava pensando em trocar meu computador. Achei meio estranho, pois eu havia acabado de receber um novo computador, Windows 7 e o caralho a quatro. Aí ele me disse que era um laptop que ele estava pensando em me arrumar. Cara, saquei na hora, pois eu sei como a imensa maioria das pessoas do escritório que tem um laptop acaba chegando na sexta e levando ele para casa, isso quando não o leva mesmo em outros dias da semana. No final das contas o corno estava querendo me arrumar um laptop para que assim pudesse me induzir a levar trabalho para fazer em casa... Aí disse que beleza, podia arrumar sim um laptop, mas eu já fui avisando que ele ia ficar ali na minha mesa e não ia sair mais pra nada.


Bom, felizmente desistiram da idéia.

Claro que existem profissões onde o profissional precisa ficar à disposição, não discuto isso. Médicos por exemplo passam boa parte de seus dias em um horário de plantão para atender uma emergência. Bombeiros precisam ficar a postos pois incêndios não ocorrem somente das oito às cinco. Mas eu acho que hoje em dia as pessoas estão exagerando, ao achar que qualquer tipo de emprego exija esse tipo de disponibilidade. Existem profissões e profissões, e algumas delas não estão associadas a questões de vida e morte, podendo esperar até o dia seguinte para que sejam resolvidas. Só que nem todo mundo pensa assim. Vejo várias pessoas de minha empresa que não se sentem acanhadas de enviar um e-mail para um cliente no fim de semana, que não se sentem incomodadas se o celular da empresa toca às nove da noite.

Outro dia foi muito engraçado... Era segunda-feira, e eu ia participar de uma fone conferência juntamente com uma pessoa que trabalha com vendas. E você deve imaginar como que é trabalhar em vendas, tendo aquelas metas a serem atingidas mês a mês, dependendo de concretizar negócios para assim garantir a sua comissão. Esse tipo de gente é que normalmente acaba se tornando exageradamente workaholic, parece que vivem constantemente sob aquela idéia de "tempo é dinheiro". Aí esse meu colega de vendas, tomado pelo desespero em fechar o negócio, havia passado um e-mail para um possível comprador no sábado, com algumas informações associadas à venda. Sim, sábado! O cara passou o fim de semana trabalhando, e havia enviado o e-mail no fim de semana.

Enfim, começa a fone conferência, logo na primeira hora da manhã, e logo no início meu colega chegou para o possível comprador dizendo "bem, eu passei para você um e-mail com a cotação da venda no sábado, mas vi que você não tinha respondido...". Nisso, o cara do outro lado da linha retrucou com uma voz sarcástica, dizendo "claro que não, eu não trabalho no sábado, pôrra!". Com detalhe ao "pôrra" no final, para não deixar dúvidas de que ele achava um absurdo que estivessem esperando que ele respondesse no fim de semana.

E com isso temos essa constante disputa entre a vida pessoal e a vida profissional... Eu sei que é importante trabalhar, e também tenho a consciência que algumas pessoas têm a sorte de trabalhar em algo que gostam, alguma coisa que lhes dá prazer de fazer. Mas por mais que essa profissão seja agradável, eu duvido que trabalhar venha a ser mais agradável do que sair com os amigos, estar com a família, praticar uma atividade física, estimular um hobby ou se divertir. Sem falar que é necessário termos equilíbrio entre o lado profissional e pessoal. Não podemos logicamente dar atenção 100% às coisas de nossa vida pessoal, é importante para que sejamos úteis como cidadãos que a gente se dedique sim à vida profissional, é uma forma de se sentir útil; mas por outro lado não podemos focar somente nisso e deixar de lado a nossa vida pessoal, ou então não estaremos tendo motivos para viver, não vamos fazer nada de realmente importante para nós.

Como um amigo meu já disse, emprego vai e vem... Mas vida só temos uma. E é por isso que temos que ter um certo controle, um certo bom senso de não permitir que a vida profissional invada por completo a nossa vida pessoal. Pois se deixarmos, o trabalho toma o lugar de tudo mesmo, sem deixar que você tenha tempo para sequer se coçar...

2 comentários:

Haitou_88 disse...

Concordo com tudo q vc disse no post, deve haver uma separação do que é trabalho e do que é lazer sempre. Um detalhe que muita gente não comenta, ou finge que não sabe, é que essas horas de lazer, almoço e etc, são definidas e obrigatórias por LEI, não é o que a empresa quer é o que ela TEM que te dar, vida só temos uma mesmo.

zefer_net disse...

Muito bom seu blog. O conheci hoje.
Especialmente este post, sobre o "workaholiquismo". Vivo isto diariamente, e olha que trabalho em uma empresa do governo, não é privada.
Aqui há um sistema de promoções baseado em mérito, o qual eu apoio para estimular os funcionários a trabalharem melhor e se desenvolverem. Entretanto a empresa espera que nos sejamos comprometidos com as funções, ou seja, fazendo HE sem receber banco de horas, atendendo celular em casa, sendo chamado para a planta fora de horário, mesmo não recebendo sobreaviso. Aqueles que não dão o n° de celular, não ficam de HE, não são demitidos, mas ficam eternamente no limbo dos não promovidos, aqueles que nunca recebem promoção e são citados como exemplos de insucesso para os funcionários novos que chegam "não sejam parados e iguais a eles, caso contrário ficarão estagnados".
Esqueci de falar das viagens, aqui é igual, os que marcam viagens no horário de trabalho são mal vistos, as viagens devem ser marcadas a noite ou de madrugada, fora do horário de trabalho.