segunda-feira, 31 de março de 2014

Música no Ouvido

Eu sou um texugo que gosta de música. Pode apostar que não tem um dia que eu não agracie meus tímpanos com minhas músicas prediletas, sempre quando vou ou volto do trabalho ou de outros lugares você me verá com fones de ouvido na orelha, quando estou aqui em casa o rádio costuma ficar ligado, embora eu acabe tendo que trocar de estação ou colocar um MP3 para tocar devido à poluição sonora causada pela MPB. Desde que me entendo como gente escuto música, é quase como uma terapia para encarar os dias de alto astral e bom humor.

Desde que alguns anos atrás inventaram o walkman, a grande maioria das pessoas faz o mesmo. Nas antigas fitas cassete era possível gravar sua coletânea favorita de músicas, embora tendo o certo inconveniente de não ser fácil escolher aquela música maneira no momento em que você gostaria de ouví-la, além da ginástica de trocar a fita do lado A para o lado B, ou vice-versa. Sem falar que a gente ficava meio limitado em termos de quantidade de músicas, por padrão eram fitas de uma hora de duração, embora existissem algumas com uma hora e meia ou até duas horas, essas mais sensíveis a problemas no aparelho, como ficarem agarradas dos roletes, fudendo tudo.


Vieram depois os discmans, permitindo que a gente escutasse os CDs que estavam ficando cada vez mais populares nas lojas, além de ser possível com a ajuda de um computador queimar um CD com as músicas que você mais gostasse. Era mais prático que gravar nas fitas cassete, naquela altura caindo no esquecimento, sendo possível ter música de qualidade digital nos seus ouvidos. Mas ainda era meio problemático, pois quem gostasse de ouvir música no ônibus ou praticando exercícios estava suscetível aos pulos na música, coisa chata para caramba. Sem falar que um arranhão no CD podia significar seu fim, apesar de todas aquelas receitas caseiras pra consertar arranhões, tipo passar pasta de dente...

Vieram então os MP3 Players, com o famoso iPod e vários outros modelos de marcas conceituadas e genéricas. Com o avanço da Internet e a possibilidade de se converter no computador os CDs no formato digital mais popular da atualidade, era possível ter suas músicas ali no aparelhinho, podendo colocar centenas ou mesmo milhares de canções, dependendo do espaço de memória, com a facilidade de se poder avançar as músicas ou mesmo criar suas próprias listas. Hoje em dia é assim que a maioria das pessoas escuta música fora de casa, usando não só esses players específicos de MP3 (e suas variantes MP4, MP5, MP6 e por aí vai) mas também os smartphones, que hoje são verdadeiras centrais multi-mídia.

Bom, mas o motivo da minha postagem aqui não era exatamente repassar por todo o histórico da música pessoal. Graças a esses aparelhos, as pessoas podem escutar música em qualquer lugar: na rua, na praia, na academia, no ônibus, no metrô... Cada um com seus fones no ouvido, ouvindo as suas músicas favoritas, qualquer pessoa, de qualquer idade, sexo e classe social... Fone de ouvido ou headphone.


"E não adianta me olhar com essa cara de filha do padeiro"

E isso que me faz pensar, quando eu estou andando na rua e vejo um monte de gente com fones no ouvido: que tipo de música essas pessoas devem estar escutando?

Como eu já disse aqui várias vezes, gosto não se discute, ainda mais quando se trata de gosto musical, mesmo sabendo que a sociedade e a mídia tentam induzir as pessoas a gostarem de certos estilos. Cada um é livre pra escutar o que quiser, e o fato da música estar sendo escutada de forma privada é até algo que favorece essa liberdade musical, sem atrapalhar os outros. Eu procuro respeitar esse direito, para que esse meu direito seja respeitado, apesar de muitas vezes eu me sentir forçado a gostar de certas bandas que eu não suporte.

Mas apesar de todo esse direito a gostar do que for, tem certos estilos musicais que simplesmente não combinam com o ato de escutar música na rua. Por exemplo, algumas vezes eu vejo senhoras de relativa idade, todas arrumadas dando aquela impressão na cara que são beatas, ratas de igreja que todos os dias vão na missa e colocam suas economias naqueles cofrinhos debaixo das imagens de santos. Certamente uma vovó que não escuta Iron Maiden ou Pearl Jam, ela deve ser fã de coisas como isso...


Cara... nada a ver... Uma velhinha escutando Marcelo Rossi ou R.R. Soares é um mal trato com um smartphone ou MP3 Player.

Outro estilo de música que na minha opinião não combina com fone de ouvido são aquelas atrocidades que eu me sinto até enojado de chamar de música... Estou me referindo ao funk da pior qualidade, estilo Mãe Loira Pai Moreno do Furacão 2000, padrão pancadão que só combina com aquele Chevette azul cobalto com adesivo de NOS na porta e auto falantes no porta-mala, rodeado de manos de boné apoiado na cabeça e minas de bunda enorme...


Pior que infelizmente canso de ver tipos assim, tipo atendente de telemarketing e lojista da Urú, escutando essas merdas de funk tipicamente no volume máximo, fazendo com que mesmo estando eu com fones, acaba chegando esse barulho de lixo no meu ouvido. É de revoltar mesmo.

Até mesmo certos estilos musicais consagrados e tidos de bom gosto, mas que também na minha opinião não tem nada a ver pra ser escutado no ouvido. É o caso de música clássica, tipo Beethoven ou similares, certa vez eu podia escutar alguém no ônibus escutando uma sinfonia de Mozart. E no mesmo volume altíssimo que tipicamente os fãs de funk curtem, parecia que eu estava em uma orquestra.

Não funciona, não é música pra se escutar na rua... Música clássica combina com sala de orquestra e com isso.


Sim, todo meu conhecimento das obras clássicas de música veio de desenhos como Pica Pau, Pernalonga e Tom e Jerry. E esse episódio era hilário, achava de mijar de rir a hora que o Pernalonga fingia ser o condutor (com os músicos exclamando "Leopoldo!") e depois ele testando o cantor gordinho com graves e agudos.

Outra coisa curiosa é como, em função da grande variedade de gostos musicais, nós batemos os olhos em uma pessoa com fones de ouvido na orelha, e ao observar sua aparência, seu estilo de se vestir, sua idade e outras características, começamos a imaginar o tipo de música que aquela pessoa está ouvindo. Por exemplo, se você vê o sujeito abaixo com um fone de ouvido, você certamente pode apostar que ele não está escutando Luan Santanna ou One Direction.


Embora que, com essa pinta, se eu cruzasse na rua com um camarada assim a primeira coisa que eu pensaria não seria em que música ele está escutando, mas sim em ir pra outra calçada...

O pior é que no fundo isso acaba sendo uma espécie de preconceito. Não confunda com discriminação, pois na prática a palavra "preconceito" seria na verdade algo como um pré-conceito que temos de alguém, baseado em alguma observação. É como você imaginar que só porque o negão tem três metros de altura ele é bom de basquete ou que só porque o cara japonês quer dizer que ele é bom de Matemática.

Da mesma forma, se eu vejo um cara cabeludo com roupa preta e tatuagem, é natural assumir que ele é fã de heavy metal; se o sujeito gosta de andar de camisa quadriculada e fivela de cowboy não seria muita surpresa que ele goste de sertanejo; se a garota se veste com um short de dois centímetros de altura atochado nos fundilhos e decotão exagerado, dá pra imaginar que ela gosta de funk; se o camarada tem cabelão comprido, óclinhos redondos e se veste com um poncho, tá na cara que é fã das bandas de Woodstock ou da fase zen dos Beatles. E assim por diante.

Agora, o engraçado é como nem sempre isso é verdade, mostrando como o preconceito em todas as suas formas pode levar a certas injustiças ou mal-entendidos. Não seria muito absurdo você ver um carinha todo arrumado de terno e gravata, todo formal indo pro trabalho, que deve estar escutando o mais recente pancadão de algum energúmeno com o nome tipo DJ Capivara ou MC Dentinho. Já conheci uma menina, toda recatada e comportada, parecendo uma das crianças da Noviça Rebelde, que não parava de escutar Mamonas Assassinas. Ao ver um sujeito lá com cabelo rastafári e touca reggae, não quer dizer que ele está escutando Bob Marley ou Jimmy Cliff, ele pode ser fã do U2 ou Bon Jovi. O morador da roça, que vive na fazenda, pode ter aversão à música sertaneja e preferir mais escutar Beyoncé. A verdade é que se nos basearmos somente com a aparência da pessoa, podemos nos surpreender quando descobrirmos o tipo de música que ela curte, tanto uma surpresa positiva como negativa.


Em todo caso, como sempre disse aqui música é algo muito pessoal, cada um tem as suas preferências, cada um tem os estilos que curte e os que detesta. E a música portátil é uma coisa que realmente colabora com isso, pois dá o direito de você escutar aquilo que você gosta, e proteger os seus ouvidos daquilo que detesta. Infelizmente ainda existem situações desagradáveis onde a música é tocada de forma pública, forçando os nossos ouvidos a escutar algo que não queremos, como quando passa um carro com som nas alturas, quando tem os blocos de carnaval cantando as mesmas marchinhas todos os anos ou quando vamos numa estação do metrô do Rio e somos recebidos com aquela musiquinha escrota com som de cuias e passarinhos ecoando no subterrâneo. Pelo menos podemos agradecer que os avanços tecnológicos e a cultura estão cada vez mais mudando esses hábitos, acabando com certas coisas desagradáveis como isso.


Hoje me dia, praticamente não temos mais que ver um sujeito carregando um rádio no ombro, tocando uma música escrota. Só vamos ver um desses se ele tiver acabado de assaltar uma casa.

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