sábado, 28 de dezembro de 2013

Aventuras Heróicas

Há algum tempo atrás, bem antes da chegada dos smartphones, XBOXes e Playstations, havia uma época onde os jogos não eram somente diversões eletrônicas, custando $0,99 na iStore, com seus Fatalities com combinações tão bizarras só capazes de serem executados por um polvo, com zumbis disparando metralhadoras e missões online. Era uma época onde haviam os chamados jogos de tabuleiro, que vinham naquelas caixas grandes de papelão, com seus mapas de cartolina dobrada, suas pecinhas plásticas, uma pilha de cartas de papel e tipicamente alguns dados de seis faces. Eram tempos onde, em vez de cada um ficar no seu canto teclando, arrastando o dedo na tela ou movendo para os lados o seu iPhone, as pessoas faziam uma roda no chão ou se sentavam na mesa de jantar ao redor desses jogos, passando algumas horas de boa diversão.

A não ser que fosse uma partida de Banco Imobiliário... Esse jogo acaba com muitas amizades, quando alguém acaba caindo na propriedade cheia de hotéis de seu amigo, perdendo todo o dinheiro.


Bons tempos que essa geração de hoje provavelmente não vai vivenciar, mas que eu tive a felicidade de ter ainda pego essa época. Aliás, é curioso como eu tive uma certa situação de ter nascido a ponto de pegar essa transição do mundo analógico para o digital. Eu jogava War, Banco Imobiliário, xadrez, damas, ludo, batalha naval, entre outros. Cheguei até a jogar muitos wargames, aqueles jogos de tabuleiro retratando grandes batalhas tipicamente da Segunda Guerra Mundial. Eram tipos de jogos que eu tinha com quem jogar, normalmente com a família mas também com os amigos. 

E outro tipo de jogo que eu gostava muito eram os RPGs. Só que nesse caso eu tive uma certa infelicidade de não ter com quem jogar. Ninguém da minha família se interessava por aquilo, e meus amigos achavam que era coisa de boiola. E acabava que eu não tinha com quem jogar, sorte que haviam aqueles livros-jogos do Aventuras Fantásticas que dava pra jogar sozinho. Mas era desanimador, eu queria jogar aventuras mais legais, ter vários amigos personificando colegas de equipe, só que ninguém se interessava por tal tipo de jogo.

Até que então um dia, foi em um Natal, que eu vi um presente diferente debaixo da árvore, uma caixa grande e fina. Não fazia idéia do que poderia ser, não estava pro tamanho de um jogo de videogame ou livro, assim como estava longe de ser aquele pacote pequeno com algumas meias ou cuecas. Quando rasguei o papel de embrulho, vi isso aqui.


Não fazia idéia do que era aquilo, mas estava ali ganhando o meu exemplar de Aventuras Heróicas, um RPG de tabuleiro lançado aqui no Brasil lá pelos meados da década de 90. O grande barato, seu grande diferencial, era que em vez dos RPGs típicos, onde normalmente vinha um monte de livros e tabelas e cartelas e o diabo a quatro, em Aventuras Heróicas vinha um mapa com inúmeras miniaturas de chumbo! Sim, era um RPG de tabuleiro, com pecinhas representando os heróis e vilões.

Claro que isso não mudou muito o problema de faltar com quem jogar: continuava a minha família não se interessando muito por aquele tipo de jogo, e meus amigos continuando a pensar que era coisa de boiola, embora alguns acharam maneiro o fato de terem as pecinhas de chumbo (embora na verdade nutrissem o interesse em que eu trocasse elas com carrinhos Hot Wheels e outros brinquedos, algo que jamais fiz). Mas eu sempre fui uma criança muito criativa, e já estava acostumado a brincar sozinho, e tal jogo de RPG, com mapa e peças, me permitia inventar regras, criar algumas idéias e tabelas em papel, que me permitiriam criar uma aventura medieval e jogar sozinho.

Sim, você pode estar pensando ser algo deprimente... Mas novamente, ninguém que eu conhecia gostava de RPG. Claro que eu ainda jogava outros jogos com meus amigos, mas eu curtia muito essas aventuras de fantasia, e não iria deixar de curtí-las mesmo que fosse me divertindo sozinho. Como dizem, antes só que mal acompanhado!

Aventuras Heróicas foi algo que marcou muito a minha infância e princípio de adolescência. Criava várias aventuras, ou mesmo simples jogos do tipo "presos na masmorra cercados de monstros". Não demorou muito para um belo dia, indo no centro da cidade, fui lá no Edifício Avenida Central numa loja de hobby e modelismo, que tinha lá antes do prédio se tornar reduto de lojas de informática, onde comprei um módulo adicional, com algumas novas figurinhas de chumbo e outras histórias. E depois havia descoberto uma lojinha em Copacabana, escondida em uma galeria, que vendia miniaturas avulsas do mesmo fabricante, a IDD Miniaturas. E ainda chegou ao ponto que certa vez em um amigo oculto do colégio ganhei mais miniaturas. E todas elas ainda estão comigo, ainda tenho a caixa do jogo guardada aqui, outro dia a abri para ver as pecinhas de chumbo.

O grande diferencial do jogo era realmente o fato de ser um jogo de tabuleiro. A idéia original era bem manjada, mas aquela história que sempre funciona: um mago do mal, chamado Kaleb, havia sequestrado uma princesa, chamada Ann. E cabia a quatro nobres aventureiros resgatá-la. Aventureiros esses a princípio sem nome, e que personificavam os clássicos estereótipos de jogos de aventuras.


Tinha o guerreiro humano, um verdadeiro cavaleiro com uma mega espada e escudo (este último que vinha separado da figura e nunca entendi como se fixava), o fortão e forte do grupo; havia também o anão guerreiro, barbudo e com um machado, já que todo grupo precisa de um anão; tinha também o elfo mago, afinal de contas elfo só servia mesmo pra lançar magias e não para lutar; e por fim uma figura original, e que por algum motivo era o meu favorito, o humano clérigo. Favorito não pelo fato de ser o religioso do grupo, mas por te rum visual bem maneiro com armadura com aquele elmo de fenda, e além de ter magias ele carregava um puta martelo de batalha.


Tem coisa mais foda que um martelo de batalha?

Na real o jogo era previsto para cinco pessoas, sendo que quatro personificariam os aventureiros enquanto outro seria o manjado Mestre do Jogo. Se você não sabe o que significa isso, era a pessoa que conduzia a aventura, personificando todos os demais personagens, lançando as surpresas contra os aventureiros e se divertindo com o infortúnio deles. Caso você ainda não tenha entendido, seria como o Mestre dos Magos do Caverna do Dragão.

Enfim, a aventura era composta por várias missões, todas elas realizadas no mesmo tabuleiro polivalente. Essa era a grande sacada do jogo, pois o tabuleiro tinha só as marcas de quadrados, usadas para ver a movimentação dos personagens, e algumas paredes delimitando os aposentos. Só que haviam também algumas peças de cartolina, representando portas, paredes e armadilhas, que eram dispostas de forma diferente para cada missão, permitindo assim criar diversos mapas. Cabia ao Mestre do Jogo montar os mapas, de acordo com um pequeno livreto de aventuras que vinha junto com o jogo.



Esse livreto também indicava a localização dos inimigos. O que não faltavam eram figuras de chumbo dos mais diversos tipos de criaturas. Tinha de tudo, pequeninos goblins que mais pareciam crianças gordinhas; tinham esqueletos com lanças e cabelos compridos (???); tinha um zumbi que mais parecia um mendigo, e que na minha caixa o filho da puta veio sem uma perna, parecendo mais um saci; tinha um ogro imenso, que parecia um Goro do Mortal Kombat com dois braços; tinha até uma múmia! Todos inimigos descritos em um outro livreto, apresentando suas características, pontos fortes e fracos.



Apesar de todo ambiente RPG, Aventuras Heróicas seguia mais a linha de jogo de tabuleiro, não sendo necessário a princípio nenhum tipo de personificação para se jogar, embora fosse possível que jogadores mais fanáticos pudessem simular diálogos entre personagens e inimigos. Acontece, tem pessoas que se divertem ao imitar um ogro, fazendo uma voz de maluco com linguajar estilo "mim Tarzan, tu Jane", ou para aproveitar a ocasião para fazer a voz fina e afeminada de uma princesa em desespero. Apesar disso, o foco era mesmo em jogar dados para decidir quem se dava bem numa luta ou se escapava de uma armadilha estrategicamente escondida, até encontrar e resgatar a princesa.

Como eu havia dito acima, um tempo depois lançaram um complemento, onde vinham mais quatro figuras, incluindo o bandidão da trama e a princesa Ann, porém agora se tornando uma aventureira também, de espada e tudo, dando a chance não somente ao Mestre do Jogo, mas também a um quinto amigo personificar uma princesa e fazer voz fina. O complemento vinha só com um novo livro de aventuras, com mais dois episódios até o confronto final com Kaleb.


Além disso, quem quisesse podia incrementar seu jogo com algumas figuras de chumbo adicionais. Não era necessário pegar os soldadinhos de chumbo da Segunda Guerra ou das guerras napoleônicas e misturar nesse ambiente medieval e fantasioso, embora seria bem original se os aventureiros tivessem que enfrentar nazistas com metralhadoras e granadas. Era possível encontrar em algumas lojas figuras de chumbo avulsas do mesmo fabricante, com cavaleiros, monstros de todos os tipos e tamanhos.

Eu cheguei a comprar alguns numa loja lá no Edifício Avenida Central, em uma época distante onde não tinha tanta loja de informática naquele lugar. Tinha aquela loja Hobbylândia e uma outra da qual não me lembro o nome onde vendiam essas miniaturas, lojas de modelismo e quadrinhos que hoje deram lugar para duas das centenas de lojas de informática que se proliferam naquele prédio. Conhecia também uma lojinha escondida, que ficava numa pequena galeria no final da Visconde de Pirajá, onde comprei algumas miniaturas adicionais (que dei mole de não ter tirado foto). Até um ninja eu arrumei!

Bons tempos esses... Tanto que me deu essa crise de nostalgia, a ponto de me fazer desenterrar a caixa desse jogo aqui em casa, o que até permitiu boa parte das fotos aqui (algumas eu peguei desse site do Board Game Geek). Quem dera ter alguém pra jogar esse jogo comigo...

13 comentários:

Cesar disse...

Caro Texugo. Muito bom além de saudoso este post relacionado ao "Aventuras Heróicas". Joguei 1 vez quando tinha uns 14 anos e nunca mais vi. Conseguiria postar mais fotos do jogo ou dos manuais de regras e aventuras? Abraços.

Texugo disse...

Cesar, vou ver se em breve consigo tirar mais fotos. Eu tinha achado a caixa do jogo enquanto arrumava meu armário, mas agora eu já a guardei. Mas vou ver se depois eu pego ela de novo para tirar fotos com mais calma. Obrigado pela visita

Anônimo disse...

Caro Texugo.

Obrigado pela atenção. Por acaso você teria a expansão do jogo chamado de "A Revelação da Princesa"? Se sim, poste também. Obrigado.

Cesar

Texugo disse...

Sim, eu tenho a expansão também, a última foto é justamente das figuras que vinham com ela. Tinha a princesa, porém com armas, o bandidão Kaleb e outro feiticeiro da trama.

Anônimo disse...

Caro Texugo,

Andei pensando cá com meus botões:

Você se interessa em vender as 2 caixas ou trocá-las com algum tipo de jogo. Talvez de tabuleiro das antigas (tenho Battletech Devir), estratégia de cartas das antigas (tenho o Illuminati Devir), ou um rpg das antigas (tenho a Caixa Azul do Tagmar, capa branca).

De qualquer sorte, quando puder e tiver tempo poste novas fotos.

Abraços.

Cesar

Texugo disse...

Puxa Cesar, nessa infelizmente eu não vou poder te ajudar, pois eles não estão à venda ou disponíveis para a troca. É uma lembrança que tenho de minha infância, e ainda espero um dia depois que as coisas aqui em casa estiverem mais arrumadas deixar ele mais a mão para quem sabe até jogar com meus amigos.

Eu não sei se você mora aqui no Rio, mas eu certa vez já vi alguém vendendo o jogo naquela feira da Praça XV. Tem algum tempo, coisas de final do ano passado, e só vi a caixa, não faço idéia se era só a caixa mesmo e se vinha com as miniaturas, assim como não sei o estado. Pena que também não se vê pelo Mercado Livre...

Sinto mais uma vez, mas espero que você consiga encontrar em algum outro lugar. Quem sabe com esse post não apareça alguém mais que conheça e que tenha pra vender?

Anônimo disse...

Caro Texugo,

Beleza. Acabei perguntando pois "vai que você ia se desafazer dele, né?".

sds,

Cesar

Vlado Kaspararov disse...

Muito legal esse jogo "Aventuras Heróicas", tenho ele também, jogava com meus primos.
Abraço
Valdemir (São Paulo)

Anônimo disse...

Muito legal este jogo "Aventuras Heróicas", tenho ele, jogava com meus primos e amigos de infância. Parabéns pelo blog!!
abraço
Valdemir (São Paulo)

Raoni Luna disse...

Caro Texugo, você tem ideia de quanto vale um jogo desse conpleto e em perfeito estado?
Também tenho um e NUNCA consegui jogá-lo... Tá novinho.

Texugo disse...

Olá Raoni, obrigado pela visita.

Confesso que não sei muito bem... Dei uma olhada no Mercado Livre pra ter uma idéia, e o mais próximo que vi foram alguns jogos do Dungeons & Dragons. Eles estão entre R$400,00 e R$450,00, todos eles usados e aparentemente em bom estado.

Mas penso que esse Aventuras Heróicas até poderia sair por um pouco mais, pelo fato dele vir com peças em chumbo, que me parecem de melhor qualidade que as de plástico.

Mas, enfim... Não tenho muita idéia de como estaria o preço de um jogo desses hoje. Vale a pena buscar algum site de RPG, imagino que deve haver algum fórum onde o pessoal vende jogos e miniaturas, para assim ter uma idéia.

Pena que foi em um timing ruim... Faz algum tempo, na época da postagem, que veio aqui uma pessoa interessada em comprar um desses.

Eduardo Fernandes disse...

Existe alguma possibilidade de eu conseguir ao menos uma referência dessa miniatura de um guerreiro com martelo de batalha!!?

Texugo disse...

Olá Eduardo, obrigado pela visita!

Não entendi o que você quis dizer com referência. Como escrevi no texto, esse era um dos personagens principais que vinha com o jogo principal, o humano clérigo. Não sei se essas figuras eram vendidas em separado...