sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Gradiente iPhone

Quem está antenado nas notícias de tecnologia deve ter visto alguma reportagem como essa daqui, que fala de uma decisão do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual em dizer que a empresa Gradiente detém o nome "iphone" aqui no terrítório brasileiro. E agora começa uma briga de patentes, já que o celular da maçã possui o mesmo nome.


Analisando de forma fria, a Gradiente está no seu direito. Lá em 2000, antes de Steve Jobs lançar o seu xodó, a empresa brasileira fez o registro desse nome, pensando na idéia de um celular inteligente. Claro, é um processo longo, e somente em 2008 é que o INPI aprovou esse pedido de registro, um ano depois do iPhone ter sido lançado e a Apple ter iniciado os trâmites para registrar o nome. Só que aí, meu amigo, vale a ordem de chegada, e enquanto o processo do registro na maçã ainda estava em andamento, a Gradiente já ostentava seu registro. E o tumulto só veio a começar agora, quando no final do ano passado a empresa brasileira lançou o seu próprio iPhone. Logicamente, para o repúdio dos apple-fanboys, que na sua costumeira mania de achar que a Apple inventa tudo, viriam a chamar a Gradiente de imitona. Só que aí nesse caso, o nome estava de fato registrado antes pela Gradiente, que detém os seus direitos.

O que vai acontecer agora depende do que for acordado entre as empresas. A Gradiente poderia, se quisesse, dizer para a Apple não poderia usar o nome iPhone aqui no Brasil. Resultado: todo mundo ia se fuder, e só poderíamos ter iPad e iPod nas terras tupiniquims. Mas ela não é boba, e já está aberta à negociação, como pode ser visto aqui. O que não seria nada de novo, a Apple em diversas ocasiões se viu na posição de chegar a algum tipo de acordo com empresas de certos países, para autorizar o uso do nome de seus produtos.

Bom, o meu primeiro comentário é dizer como "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Você deve ser lembrar dessa postagem que fiz algum tempo atrás, sobre aquela decisão judicial entre Apple e Samsung. Muitas pessoas, principalmente os apple-fanboys, aplaudiram a decisão, dizendo que a empresa coreana era safada, que fazia cópias de má qualidade do iPhone, e que a Apple era quem tinha inventado coisas como "retângulos de cantos arredondados". Nada como um dia depois do outro, agora é a maçã quem está na berlinda, pois a Gradiente teve a idéia antes do nome iPhone, e agora tem a justiça (pelo menos aqui no Brasil) ao seu lado.


Claro que, como é comum de se observar com fanáticos religiosos, anti-americanos e petistas, os fãs da Apple estão agora adotando a típica postura de "mesmo peso, duas medidas". Enquanto que no caso da Samsung eles aplaudiram a decisão judicial, levantado palavras ardorosas como "justiça" e aplaudindo a defesa da propriedade intelectual, agora as mesmas pessoas vêm dizer que a Gradiente é filha da puta, que eles estão fazendo isso de sacanagem, que eles roubaram o nome da Apple, que só lançaram esse iPhone agora de malandragem... Uma gracinha, não acha? Sinceramente, pessoas desse tipo que mudam seus valores como trocam de roupa de acordo com a conveniência não merecem o meu respeito.

Pombas o próprio Steve Jobs não era santo... Ele chegou a dizer coisas como essa:

"I will spend my last dying breath if I need to, and I will spend every penny of Apple's $40 billion in the bank, to right this wrong. I'm going to destroy Android, because it's a stolen product."

Mas seu lema nos primórdios era mais nessa linha:

"We have always been shameless about stealing great ideas."

Essa veio daqui do 9gag

Tem até gente criticando a postura amistosa da Gradiente em chegar a um acordo, dizendo que o interesse deles é somente em ganhar dinheiro, que ela é uma empresa fudida e precisa de malandragem pra evitar a falência. Pode até ser uma empresa fudida e estar em uma situação financeira desfavorável, mas novamente digo, ela está apenas fazendo valer o seu direito. Duvido que essas pessoas que estão reclamando da Gradiente seriam assim tão fraternas em uma situação parecida, se elas tivessem ao seu alcance uma chance de ganhar uma bolada de alguma forma.


Eu cheguei a ver um comentário em um blog que fala dos aparelhos da Apple, um site aliás muito bom, o qual consulto sempre. Peço licença para replicar aqui embaixo um parágrafo desse comentário (só um detalhe, a IGB Eletrônica é a empresa que controla a Gradiente).

"Repare que, neste caso, a decisão não tem a intenção de trazer nenhum benefício para o consumidor, pelo contrário. Se a Apple não paga, nós seremos obrigados a nos privar do iPhone no comércio brasileiro (...). Se, ao contrário, ela paga o que a Gradiente pedir, a vida de NINGUÉM irá mudar. Ou seja, a IGB Eletrônica está brigando por uma causa de interesse único dela, por benefício próprio, e não por estar minimamente preocupada em trazer algum benefício aos seus consumidores."

Concordo em parte que a competição deve ser algo a beneficiar o consumidor, a incentivar um maior desenvolvimento por parte das empresas a ponto de termos produtos cada vez melhores. Tipo a competição de termos aparelhos da Apple, da Samsung, da Nokia, e por aí vai. Mas não acho nada de errado na Gradiente fazer uso de seu direito legal para benefício próprio. Se ela é dona do nome "iPhone" aqui no Brasil, por ter registrado antes que a Apple, ela está no seu direito de fazer o que bem entender. Se ela será a única beneficiada por essa causa, qual o problema? Será que só podemos lutar pelos nossos direitos quando isso for trazer benefício para terceiros?

Ou você acha que a Apple foi tão altruísta e processou a Samsung somente para trazer algum benefício para nós, consumidores? Você acha que eles não faziam questão da grana? Pegava esse dinheiro e desse pra caridade... A Apple não foi nem um pouco bonzinha ao clamar pelos direitos dos cantos arredondados, por que os outros então têm que baixar a cabeça pra ela? E certamente ela estava preocupada em si mesma, em proteger a sua propriedade intelectual e de quebra dar uma porrada em seu maior concorrente. Na boa, aquela decisão judicial da Apple x Samsung não contribuiu em nada para os consumidores.

E dizer que o caso da Apple é diferente, pois ela teve que investir pesado em desenvolvimento, enquanto a Gradiente apenas registrou um nome, não tem nada a ver. Patente é patente, seja de um produto, de um nome. Será que a postura das pessoas seria a mesma se a Apple tivesse patenteado uma palavra (como a operação de swipe) e a Samsung usasse o mesmo termo?

A Gradiente não agiu de má fé, ela não tinha como prever que alguns anos depois o iPhone seria tudo isso. Ela arriscou, achou esse nome interessante e o registrou, pensando em usá-lo no futuro, ou mesmo vendê-lo como possivelmente vai acontecer agora. Não tem nada demais, pode apostar que a Apple não deve fazer diferente, que ela tem inúmeras patentes de produtos, aplicativos e uma série de outras coisas que hoje ela nem faz idéia de como vender, ou mesmo se vai vender um dia.


Sem falar que a Apple podia ter sido mais esperta... Prevendo já o lançamento do seu iPhone, e considerando toda a preocupação que eles têm com patentes e etc, eles poderiam ter tentado se informar nos países se o nome iPhone já estava registrado, ou em vias de ser. Aí ela podia tentar argumentar com a Gradiente para comprar os direitos pelo nome iPhone lá atrás, antes dessa marca se tornar tão famosa como é hoje. Não iria criar esse estardalhaço todo, e muito provavelmente a Apple iria ter que gastar bem menos. 

Ninguém acha errado quando a Apple faz uso da justiça para processar os outros, acham que ela está sendo correta e tudo mais; agora, quando processam a Apple aí é sacanagem... É como se a Apple fosse uma empresa imaculada, que nunca faz nada de errado e que só pensam em seus consumidores, que seus iPhones, iPods, iPads, iQualquer Coisa fossem os melhores produtos do mundo. Só vou dizer que eles são incontestavelmente bons se eles inventarem uma iGirl dessas aí de baixo e colocar na iStore...


Falando sério agora, depois do momento hedonista, a verdade é que nenhuma das empresas, seja ela Apple ou Gradiente, está assim tão preocupada com os consumidores. Elas estão focadas em ganhar dinheiro, em lucrar o máximo possível, em vencer a concorrência e conquistar o mercado. E elas vão fazer o que estiver ao alcance delas para conseguir isso.

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