domingo, 18 de novembro de 2012

Geração Workaholic

Engraçado como são as coisas do mundo corporativo, outro dia quase mandei um colega de trabalho tomar bem dentro de seu esfíncter. Tudo isso por conta de uma daquelas conversas de bebedouro, na qual eu e outro colega estávamos reclamando de como nosso chefe nos sobrecarrega de trabalho, acima da capacidade humana, o suficiente para muitas vezes encurtar a hora de almoço para um rápido lanche de 15 minutos na birosca perto do escritório e atrasar a saída do trabalho para bem depois das 5. 

Aí então chega o supracitado sujeito que trabalha com a gente, e após escutar a minha reclamação sobre a carga pesada de trabalho e de que não haviam horas suficientes para fazer tudo, ele veio com uma cara de paspalho e disse, com um sorriso amarelo no rosto.


"Ah, e o que você faz entre meia-noite e seis da manhã?"

Só sei que eu parei de falar, olhei para a cara dele com uma expressão de ódio. Acho que ele não precisava ser vidente ou o Professor Xavier para perceber que na minha mente eu estava xingando todas as últimas oito gerações dele...

Brincadeiras à parte, esse tipo de postura é cada vez mais comum hoje em dia, sabemos muito bem disso. Vivemos hoje em uma era onde há um enorme incentivo por parte da sociedade e das empresas que se trabalhe mais do que antigamente, não respeitando sequer mais aqueles momentos de descanso, conhecidos como a hora de almoço e o fim de semana. Tenho certeza de que isso é familiar, posso apostar que você que vem aqui visitar o blog e que trabalha certamente já teve que trabalhar além das quarenta horas semanais alguma vez na sua vida.

A não ser que você seja funcionário público, lógico...


Temos com isso uma geração que hoje é extremamente workaholic, que se dedica cada vez mais ao trabalho, quase sempre em detrimento de outras coisas da vida. Estamos trabalhando muito mais que nossos pais e nossos avós, e a pergunta que faço é: vale a pena?


Diria que a grande culpa disso é o grande avanço da tecnologia, em especial por causa do telefone celular. Lembra do tempo no qual o telefone era somente fixo? Agora com o celular, nossos chefes, nossos clientes, nossos colegas de trabalho, todos podem falar com a gente a qualquer momento. Seja no ônibus a caminho do trabalho, seja no carro ao voltar para casa, sejam mesmo durante a hora em que estamos sentados na mesa do restaurante para almoçar.

Vi isso outro dia. Estava no restaurante e na fila do buffett estava um sujeito, segurando o prato (ainda vazio) em uma mão e o celular na outra. Sei que eu passei por ele, pesei a comida, achei uma mesa e estava já comendo quando o carinha finalmente pôde desligar o aparelho e começar a se servir.


Com a chegada dos smartphones então, nem se fala. Esses aparelhinhos permitem que você veja e responda e-mails, e até se for o caso fazer uma video-conferência. Observe na rua, no metrô, no elevador, e você certamente verá alguém digitando nas teclazinhas pequenas de um Blackberry ou datilografando na tela Touch de um iPhone um e-mail do trabalho. Ou até mesmo em um laptop, outro dia peguei a ponte Rio-São Paulo e era absurda a quantidade de pessoas no portão de embarque com seus notebooks abertos e modems da Claro ou Vivo plugados, mandando aquela mensagem que não pode esperar uma hora...

Esse é o maior problema dessa tecnologia, pois hoje entende-se que não há desculpa para esperar por alguma coisa. As empresas estão ficando muito imediatistas, exigindo que seus funcionários respondam as mensagens o mais rapidamente possível, e com isso temos essa neura de comunicação em qualquer momento.

Sério, já chegou uma vez que fui no banheiro e tinha um cara lá cagando e falando no celular com seu trabalho! Agora ninguém tem o direito nem de sentar no trono e despachar um deputado em paz...



Principalmente se formos um pouquinho mais criteriosos e entender que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Certas atividades do trabalho, como responder um e-mail, ligar para um cliente ou fazer um relatório não tem como ser feitas naquele exato instante, demandam tempo para serem executadas, ou mesmo dependem de algo ou alguém fora de nosso controle. Até mesmo a pressa em responder pode ser prejudicial: quem é que nunca mandou um e-mail apressado e se arrependeu? Sem falar que as coisas têm as suas respectivas prioridades, e muita vezes aquilo que surge naquele momento é de fato menos importante do que você está fazendo, e deve ir para o fim da fila.

E pelo menos comigo, não adianta essa conversa de dizer "é urgente". Se tem uma coisa que aprendi é que na imensa maioria das vezes quando alguém diz que uma coisa é urgente, na verdade não é urgente pôrra nenhuma. É só uma forma que usam para tentar ser atendidos imediatamente. Já perdi a conta de quantas vezes tive que parar o que estava fazendo para atender uma urgência, e aí quando entregava para a pessoa que solicitou, escutava sempre um "ah, depois eu vejo...".

Eu pessoalmente sou muito contra esse tipo de "disponibilidade" exagerada. Tudo tem a sua hora e o seu lugar, e temos que ter um mínimo de bom senso para saber as horas nas quais o trabalho deve ficar em segundo plano. Não é porque hoje temos essa facilidade de estarmos sempre conectados que devemos estar sempre à disposição para atender ligações e fazer coisas do trabalho, deve existir um limite. Chegamos até onde estamos hoje respeitando as 40 horas semanais de carga horária, será que precisamos de mais?

Mas não é assim que a maioria das pessoas pensa, a necessidade de estarmos sempre conectados é muito mais forte. E com isso, acaba sendo natural que a dedicação ao trabalho acabe sendo maior, seja pelo fato de que as pessoas estão ficando muito mais ansiosas e imediatas graças à facilidade da comunicação, seja pela pilantragem dos chefes que adoram que seus funcionários façam coisas do trabalho fora do expediente, com horas não-remuneradas... Sério, tem gente que enxerga isso como comprometimento com a empresa. Pra mim, é abuso por parte da empresa, e burrice do funcionário quando aceita isso.

Lá na minha empresa já tive essa discussão certa vez com meu chefe. Era a época que o pessoal da informática estava querendo trocar os computadores da equipe, e meu chefe sugeriu que eu trocasse a minha estação de trabalho por um notebook. Neguei na hora! Meu chefe tentou me convencer de diversas formas, dizendo que com um notebook seria mais prático e fácil para eu trabalhar... Claro, para eu trabalhar de casa! Consegui fazê-lo desistir da idéia quando disse que, se me arrumassem um notebook, ele iria passar os fins de semana quietinho em cima de minha mesa...

Cara... Onde já se viu? Trabalhar no fim de semana? Vá pra puta que o pariu! Tem que ser muito tarado por trabalho pra isso!

E o pior é que tem gente que é... Alguns meses atrás  um colega nosso saiu de férias para a Europa com a esposa, visitar lugares como Paris. Mas todo dia ele respondia e-mails, e até participava de fone-conferências! Imagina como que a mulher dele ter ficado...


Tem gente que até gosta, que é a favor da prática de "trabalhar em casa". Comigo não funciona. Eu sou um texugo que gosta de separar as coisas, considero importante definirmos bem certas fronteiras entre as coisas, ou então perdemos o controle de onde começa e onde termina cada uma delas. E uma dessas fronteiras que procuro estabelecer é entre o escritório e minha casa. Eu evito ao máximo levar para o trabalho os problemas do lar, mas também espero o mesmo tipo de compreensão por parte do meu trabalho, não permitindo que os problemas e tarefas de lá invadam a minha casa.

Trazer o trabalho pra casa implica em um risco duplo, na minha opinião: a primeira coisa é que você estará em seu ambiente de casa, e a tentação para dar uma escapa da labuta sempre será grande. Mesmo que você tente ser o mais profissional possível, tendo por exemplo um escritório em casa, sempre vai haver alguma distração, como o telefone, um vizinho chato, o cachorro querendo brincar ou os filhos curiosos com o seu trabalho.


Mas o pior na minha opinião é o contrário... É que uma vez o trabalho tenha invadido o seu espaço pessoal, a tendência é grande para que tentem forçá-lo a se dedicar um pouquinho a mais. Uma vez se abra um precedente desses, fica muito mais fácil para o chefe pedir que você dê uma olhada nos e-mails no fim de semana ou dedique algumas horas da noite para ler um certo documento. Aí, meu amigo, é um caminho cuja volta é difícil...

Espero que as pessoas se conscientizem de que exageros não levam a nada, principalmente quando o assunto é trabalho. Não é porque hoje temos um acesso mais fácil aos meios de comunicação que vamos ter que ficar 100% de nosso tempo ligados no que acontece no emprego. Sei bem que trabalhar é um mal necessário, mas vamos maneirar, não é?

Um comentário:

Anônimo disse...

A realidade hoje é essa, quem quer continuar no emprego tem que se acostumar. Não tem jeito, hoje tem mesmo que ficar online, ou então corre o risco de ir pra rua.