terça-feira, 7 de julho de 2009

Bissexualismo musical

Como já comentei anteriormente, eu pessoalmente não sou muito fã da música brasileira. Até escuto algumas músicas, e existem canções que são boas, principalmente da década de 80, antes da explosão "cultural", que faz com que a cada dia surjam dezenas de cantores sem talento e insuportáveis que em breve aparecem no Faustão ou no Gugu. Mas vou buscar aqui uma música tida (não por mim) como um clássico brasileiro, Quase Sem Querer do Legião Urbana, em especial a primeira estrofe, que reproduzo abaixo:

"Tenho andado distraído / Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso / Só que agora é diferente

Estou tão tranquilo / E tão contente."

Como é de costume aqui no Brasil (aliás um costume cada vez mais popular), muitos cantores e cantoras acabam regravando músicas de outros artistas, algumas vezes como forma de homenagem e outras vezes por preguiça e incapacidade de escrever uma música. E essa música em particular acabou sendo regravada pela Zélia Duncan e sua voz horrorosa e enjoada. Não vou colocar link do áudio dessa música, pois não quero contribuir com a difusão de drogas pesadas e prejudiciais à saúde como essa canção escrota, mas se o nobre leitor tiver a oportunidade de escutar essa música no rádio ou na Internet, preste atenção em como a cantora canta os versos destacados acima...

Para aqueles que não perceberam nada de estranho, ou caso alguém tenha levado meu alerta a sério e não expôs seus ouvidos a esse lixo musical, o ponto que me chamou a atenção é que mesmo a tal da Zélia Duncan ser mulher (acredito eu), ela canta os versos da mesma maneira, sem tornar femininas as palavras. Ou seja, em vez de cantar "Tenho andado distraída, impaciente e indecisa", ela mantém as palavras intocadas, seguindo o mesmo gênero usado pelo Renato Russo, cantor original (que só era homem no atestado de nascimento). E este é apenas um exemplo, o que não falta são músicas cantadas por mulheres com palavras masculinas e vice-e-versa.

Nunca entendi muito bem o porquê desta postura. Afinal de contas, seria tão complicado trocar um "o" por um "a"? Afinal de contas, tal mudança não afetaria significativamente a rima dos versos, quando existe preocupação com a mesma. Acredito que mudanças como essas não são feitas pois há uma exagerada preocupação pelo respeito à integridade artística da obra musical. A letra da música é vista como algo que só pode ser tocado pelo seu compositor, e alterar uma sílaba sequer seria violar a criação original. Babaquice na minha opinião, como se uma mudança tão pequena como adaptar o gênero da canção fosse algo tão inaceitável... Penso que é mais estranho aparecer uma mulher cantando que "está chateado por que está longe de sua amada...", já vai dar a entender que a música é sobre um casal de lésbicas que estão distantes, e a música é cantada pela metade "macho" do par...

Às vezes penso que a razão é essa mesma, parece mesmo que a MPB é um antro cheio de homossexuais enrustidos, que vêem na regravação de uma música original de um artista do sexo oposto a oportunidade de expressar a sua postura sexual sem chamar a atenção. É de se esperar de um país que tem uma longa lista de músicos, como Cazuza, Cássia Eller, Renato Russo, Ney Matogrosso e companhia, que são ou eram homossexuais assumidos. Como diz um colega meu, na MPB o que mais tem é viado e fanchona...

Curioso como esse "bissexualismo musical" é algo que só acontece aqui no Brasil, lá fora essa questão é bem menos comum. Claro que em inglês não há tanto problema em relação ao gênero das palavras, até porque muitas delas servem tanto para homens como mulheres (como distracted, impacient e confused), mas em alguns casos o cantor faz uma adaptação para tornar a música mais natural. Cito como exemplo o Roxette, uma banda sueca que gosto muito, composta por um cantor e uma cantora (Per Gessle e Marie Fredriksson, com seus nomes de difícil pronúncia): algumas músicas possuem versões distintas, uma delas (normalmente a demo original) cantada por ele e a outra cantada por ela, mas cada um deles adapta de acordo, como por exemplo a música "Crash! Boom! Bang!":

"...When you find your man, make sure he's for real" - versão original, cantada pela Marie
"...When you find your girl, make sure she's for real" - versão demo, cantada pelo Per

Inclusive essa banda em particular fez algo extremamente original: uma de suas músicas possui duas versões, uma masculina cantada pelo Per e outra feminina na voz da Marie. O mais legal é que essa música, ou melhor, músicas, contam os dois lados de uma história. Veja só nos versos que transcrevo abaixo, começando com "Cinnamon Street", a versão masculina:

"There was a girl on Cinnamon Street, the same age as me, we shared the curiosity. I won her heart cos I could play guitar. Well I promised her heaven at once and later all the stars."

E os versos equivalentes de "2 Cinnamon Street", a versão feminina:

"There was a boy on Cinnamon Street, the same age as me, we shared the curiosity. He won my heart cos he could play guitar. He promised me heaven at once and later all the stars."

Uma idéia simples, porém que funciona muito bem. Não é à toa que essa é, na humilde opinião deste texugo, uma das melhores bandas da história.

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