Revolta seletiva

Vou fazer uma postagem que espero que seja curta (mas sei que não será), e que sei que será polêmica. Provavelmente vai aparecer gente aqui me criticando e mesmo colocando palavras na minha boca. Mas não me preocupo. Acredito que é prudente que alguém faça esse tipo de análise para demonstrar que, principalmente nos dias de hoje das redes sociais, tem muita gente que gosta de sinalizar virtude diante de acontecimentos de grande repercussão... mas que não passa de oportunismo barato para aparecer e hipocrisia para aparentar que tem bons valores.

O assunto que me motivou a escrever aqui foi o triste caso do cachorro Orelha, um vira-lata que vivia em uma cidade no estado de Santa Catarina, e que todo mundo conhecia. Alguns dias atrás ele sumiu, até ser encontrado severamente ferido, e apesar de ter sido levado ao veterinário, os ferimentos foram muito graves e o coitadinho sofreu uma eutanásia...

A partir de imagens de câmeras de segurança e relatos de algumas testemunhas, a polícia chegou então a quatro adolescentes que foram considerados suspeitos de terem agredido o Orelha. Reforçando que não existem até o momento provas concretas (tipo, não há imagens de câmeras mostrando efetivamente eles agredindo o cachorro), mas sim fortes indícios de que eles seriam sim os culpados, com testemunhas dizendo que eles costumavam ser agressivos com animais e imagens em que eles tentaram afogar outro cão (que sobreviveu). 

Há outros agravantes ao caso, associados a três adultos, sendo dois dos pais e um tio de alguns adolescentes, um deles advogado e dois empresários, que tentaram pressionar e coagir testemunhas e interferir no processo. Além disso, há também a questão da juíza que inicialmente foi escalada para atuar no caso, que seria amiga muito próxima da família de um dos jovens, e uma semana depois se declarou impedida. Ressaltando que, contrariando o que muitas postagens sensacionalistas dizem, ela não foi escolhida "a dedo" para tentar direcionar o julgamento, já que a escolha do juiz que vai atender um determinado caso é feita aleatoriamente pelo sistema do tribunal; e não há comprovação de que ela tenha se declarada impedida após a pressão popular, pois essa decisão veio antes desses últimos dias em que o caso ganhou repercussão. O mesmo vale para o fato de que dois dos adolescentes tinham viajado para os EUA para passear na Disney, o que muita gente alegou na Internet é que foi uma tentativa de fuga; mas na verdade era uma viagem planejada previamente, e que acabou coincidindo de ocorrer logo depois do episódio.

Enfim, esse é um breve resumo do caso do cachorrinho Orelha. Mas eu não vim aqui para falar especificamente do caso em si, para isso já tem um monte de gente que já está fazendo, e como ainda está em andamento certamente teremos atualizações. A minha análise aqui é outra, sobre a repercussão que o caso ganhou (melhor dizendo: a repercussão que "somente" esse caso ganhou) e a hipocrisia do discurso da maioria.

Sério, quando vemos como que a sociedade se revoltou de forma explosiva com esse episódio, daria a impressão de que o Brasil é um país onde os animais são bem cuidados. Mas a realidade é outra, e tem centenas (talvez milhares) de casos como do Orelha que ocorrem a cada ano. Por exemplo, no Rio de Janeiro é um caso de maus tratos a cada dois dias, muitos destes que não sobrevivem. Tem até casos de marginais que publicam na Internet vídeos ondem torturam animais de todos os tipos, que é um assunto que vou falar mais pro fim. Isso sem falar em inúmeras situações com cães comunitários como Orelha, que são agredidos ou mortos nas periferias e zonas rurais de todo o Brasil.

Por que esses casos não têm repercussão nenhuma? Por que só o Orelha é que levou lágrimas aos olhos e palavras de ordem para as bocas da multidão, enquanto isso acontece de forma tão cotidiana pelos quatro cantos do país?

Bom, eu tenho certeza que nesse momento já deve ter gente me xingando, alegando que eu esteja minimizando a crueldade praticada contra o Orelha, possivelmente dizendo até que eu estou "passando pano" só porque os adolescentes são "filhinhos de papai". Devem estar gritando que eu não tenho coração por não estar me sensibilizando com o que aconteceu, como as outras pessoas estão fazendo.

Para os revoltadinhos que estão putos comigo, a primeira que eu digo é a seguinte: vão tomar no rabo, antes que eu me esqueça.

Em segundo lugar, a existência desses zangadinhos que ficam putinhos quando alguém faz uma pergunta dessas só comprova o que eu quero comentar nesse texto. Vi isso até de forma "real", numa conversa com os amigos, onde fiz o mesmo questionamento e tiveram dois que reagiram de forma explosiva e tempestiva. Provando que na sociedade de hoje não há espaço para o pensamento próprio, não se tolera aquele que pensa de forma independente para formar as suas próprias conclusões e opiniões. Principalmente nesses casos de grande repercussão, parece que todo mundo é obrigado a pensar exatamente da mesma forma, se você pisar um pentelhésimo fora do quadrado vai ser jogado lá longe e considerado um pária da pior espécie.

É como acontece com o caso do Orelha: a impressão que fica é que todo mundo precisa demonstrar indignação de forma inquestionável, tem que chamar os adolescentes de monstros que gostam de matar animais, tem que dizer que os país são irresponsáveis que criaram criminosos e tentam protegê-los, tem que dizer que a juíza que é amiga de uma das famílias é uma canalha que tentou burlar o processo... Enfim, precisa repetir piamente o discurso da maioria. Tem que falar exatamente tudo isso para estar do lado "certo". 

Mas se simplesmente fizer uma pergunta, se ousar levantar um questionamento, se tiver a audácia de refletir de forma mais ampla sobre o tema... aí, fudeu. Faça isso e você automaticamente será também um monstro, que não tem compaixão pelos animais e que está defendendo os playboyzinhos.

Pois é... por isso que esse mundo não vai pra frente.

Se as pessoas tivessem alguns neurônios, não seria necessário explicar que simplesmente fazer uma pergunta como essa que fiz não significa obrigatoriamente que a pessoa concorde com o que foi feito com o Orelha. Trata-se apenas de um questionamento sobre o que está atrás dessa revolta seletiva. Afinal de contas, se alguém é tão contrário aos crimes e maus-tratos contra os animais, a indignação deveria vir em toda e qualquer situação em que isso aconteça, não é? 

Quem discorda, me explique. Diga por que o episódio do Orelha merece mais repercussão e deve causar mais comoção e revolta do que os casos de muitos outros animais sem nome que são agredidos e mortos todos os dias.

Ou será que apenas quando o caso explode nas redes sociais é que devemos nos sensibilizar? 

Infelizmente, esse é mais um retrato de como a sociedade hoje é extremamente superficial e incapaz de pensar de forma racional. Tem milhões de pessoas revoltadas com o ocorrido, mas que em sua imensa maioria apenas o fazem pois é o assunto do momento, é o que todo mundo está falando, só porque apareceu no Fantástico ou no canal de YouTube de algum influenciador. E por ser um assunto de grande repercussão, pessoas desprovidas de vontade própria e intelectualmente rasas se unem ao coro que está indignado com o acontecido, só para "não ficar de fora", para garantir que estão fazendo parte da maioria. 

Tudo isso quando eu tenho certeza que boa parte dessas pessoas está pouco se lixando para maus tratos contra os animais. Como disse acima, são casos diários, pode apostar que toda semana deve ter um outro episódio igual ou até pior do que aconteceu com o Orelha... mas a turminha "do bem" que hoje está esbravejando nas redes sociais nem liga. No fundo, a maioria não se importa... 

"Ah, mas os outros casos não ganharam publicidade..." algum idiota vai dizer. Mas, por que não ganharam publicidade? Com milhares de histórias parecidas, era de se esperar que pelo menos algumas outras viessem a ganhar holofotes, mas não é isso que acontece, é silêncio total. Repito, com tantas pessoas sinalizando virtude, era para estarem questionando o porquê de outros casos não receberem nenhuma repercussão, nem uma notinha de rodapé. 

Essa é a pergunta que ninguém faz... até porque sei muito bem que não fazem essa pergunta porque no fundo a motivação é outra, logo abaixo eu vou falar a respeito. 

E mesmo se formos assumir isso como uma justificativa plausível, que o fato de outros casos não ganharem publicidade legitima as pessoas que só agora estão se sensibilizando pelo Orelha... há um monte de outras atitudes que essas pessoas poderiam já estar fazendo, se fossem mesmo tão solidárias aos animais. Ênfase no "poderiam", pois eu tenho a certeza absoluta que a grande maioria não mexe um dedo em prol dessa causa.

Quer ver aqui um exemplo: vamos fazer uma estimativa de alcance e reação sobre o caso, algo que pensei com ajuda do Grok e que você pode fazer com sua ferramenta de IA preferida, pesquisando pelos números das redes sociais. Considerando aquelas mais difundidas, como X, Facebook e Instagram, seria possível estimar de forma razoável que entre 2 a 5 milhões de pessoas reagiram de alguma forma ao caso do Orelha. De forma otimista, esse número seria bem maior, mas vamos usar esse intervalo médio. Ou seja, seria plausível dizer que tem entre 2 a 5 milhões de pessoas revoltadas com o que aconteceu com o cachorro, e supostamente seriam pessoas que se preocupam com maus tratos contra animais, certo?

Deixo a pergunta no ar: quantas dessas pessoas aí fazem uma doação recorrente para a SUIPA ou entidade semelhante que cuide dos animais?

Pois é... Sabemos bem qual é a resposta.

Para se ter uma ideia: baseada na mesma pesquisa que fiz com auxilio do Grok, foi dito que no Facebook da SUIPA (que é a rede social deles com mais movimento), são cerca de 45 mil curtidas. Ou seja, praticamente 1% em relação à reação relativa ao episódio do Orelha (estimada de forma conservadora). Resumindo em bom português, já que o brasileiro médio é incapaz de calcular porcentagem: significa de que a cada 100 pessoas que estão revoltadas com o que aconteceu com o Orelha, somente uma ajuda a principal entidade que luta pela proteção dos animais aqui no Brasil.

Imagine se metade dessas pessoas, que se limitam a dar likes e deixar comentários em postagens de redes sociais sobre o caso recente, decidisse fazer algo efetivo como uma doação para a SUIPA? O que não me parece algo absurdo de se pedir, se são mesmo pessoas que se preocupam com os animais. 

Só que o grande problema da sociedade atual é que mais vale sinalizar virtude do que ser virtuoso de verdade. Mais importante do que malhar é tirar uma foto na frente do espelho da academia, mais importante que manter uma alimentação saudável é postar uma foto do prato fit com uma frase de efeito... Essa é a realidade da sociedade de hoje, movida pela ostentação nas redes sociais. 

E isso vale também quando o assunto é maus tratos contra animais. Doar um dinheirinho pra SUIPA, sei lá, de dois em dois meses, uns cem reais por exemplo... ninguém quer, preferem usar esse dinheiro na noite ou pra comprar alguma bobagem. Mais fácil é fazer uma postagem com uma foto do Orelha com uma mensagem que achou em algum site de auto-ajuda para ganhar curtidas e posar de defensor dos animais. Quando a sociedade é superficial, basta isso.

Repito: a grande maioria que hoje está revoltada com o caso do Orelha, no fundo nem liga para os animais. Só querem dar a impressão que ligam.

Mas, seria só mesmo uma questão de sinalizar virtude nas redes sociais? Que é inquestionável que no final do dia a questão dos maus tratos contra os animais não tem importância para a imensa maioria, isso já sabemos. Só que ainda fica aquela pergunta que segue sem resposta: por que o Orelha? O que é que tem nesse episódio que motivou a grande publicidade e enorme repercussão? Qual a diferença dessa história para outras tantas milhares que passam despercebidas? Seria só um mero acaso, uma simples coincidência?

Quem tem o mínimo de noção da realidade, ainda mais aqui no Brasil, sabe que não existe essa de simples coincidência...

A grande realidade é que se olharmos os principais ingredientes desse caso, já começa a ficar claro qual a principal razão que fez com que essa história resultasse em uma grande revolta por parte da sociedade: foram adolescentes de famílias de alto poder aquisitivo, alguns deles filhos de empresários, moradores de um bairro nobre de Santa Catarina e que têm condições financeiras de viajar para o exterior...

Para o bom entendedor, fica evidente que tem uma motivação social por trás dessa revolta toda...

Aqui no Brasil há um fenômeno que eu costumo chamar de "pobrismo", que é uma visão da sociedade que tende a ser sempre solidária aos pobres e, por outro lado, promove repulsa aos supostamente mais ricos. É aquela percepção geral de que, se o sujeito é pobre, automaticamente é visto como alguém que é honesto, que jamais faz coisas erradas, que é um pobre coitado cujos problemas são sempre causados por outros. Por sua vez, a classe com maior padrão de vida é vista com desdém, são taxados de arrogantes e metidos, além de serem acusados de terem uma vida boa somente por conta de privilégios e vantagens que eles tiveram. Isso quando não são até mesmo hostilizados, com alegações de que sua melhor condição de vida foi alcançada de forma irregular ou às custas dos pobres bonzinhos.

Na cabeça dos babacas que defendem o "pobrismo", parece que é impossível que alguém seja pobre por ser preguiçoso ou por não se esforçar, tampouco se considera a possibilidade de que possam estar nessa condição de vida complicada por conta de decisões ruins e inconsequentes que tomaram ao longo da vida. E da mesma forma, também fica a impressão que nunca alguém que tem uma condição de vida um pouco acima da média chegou ali depois de ter ralado muito, de ter se esforçado e se sacrificado. É como se fosse impossível alguém ter uma condição financeira boa, mas ser honesto e correto ao mesmo tempo.

Se até agora não veio ninguém me xingar, eu aposto que depois desses dois parágrafos vai ter gente querendo comer meu fígado. Não ligo, cara feia pra mim é fome. E se aparecer gente aqui me xingando por conta disso... bom, só prova que eu tenho razão, se estiver gerando toda essa revolta. Obrigado por mostrarem que mais uma vez eu estou certo.

E antes que venham falar que estou levantando essa hipótese por motivações políticas e ideológicas, está redondamente enganado. Por mais que seja evidente que a esquerda pregue a luta de classes e adore usar essa narrativa do "pobre é bom, rico é ruim", essa visão de sempre colocar o mais pobre em um patamar moral superior ao mais rico é algo apolítico, é visto como algo louvável e digno de aplausos. Para tornar o conceito do pobrismo mais claro, ele é como a mania que as pessoas têm de sempre torcer pelo mais fraco, e de sempre comemorar quando o mais forte se dá mal.

Enfim, eu tenho a certeza de que vai ter muita gente puta com esse meu comentário. E que logicamente vai adotar a manjada tática de me desqualificar. Provavelmente vão dizer que, como eu estou dizendo que a questão é muito mais social do que por conta da causa dos animais, que sou pega-pau de playboy riquinho, que eu estou defendendo o que os adolescentes fizeram e assim por diante. Quem sabe até vão me acusar de agredir os animais, né? Afinal de contas, vale tudo para desqualificar aqueles que não estão se enquadrando no discurso hegemônico que todo mundo segue cegamente sem refletir.

Mas vamos lá. Pois eu admito que me dá um prazer mostrar que esses babaquinhas sinalizadores de virtude estão errados e não passam de hipócritas.

Uso como exemplo um outro caso recente de violência contra animais, de um sujeito em uma cidadezinha em Rondônia que foi flagrado arrastando uma cadelinha, que estava amarrada em sua moto. Foi levado para a delegacia, passou pela audiência de custódia e já foi liberado...

E aí? Cadê a turminha do bem? CADÊ A TURMINHA DO BEM, PÔRRA?! 

Onde estão os sinalizadores de virtude agora? Onde estão vocês, que são superiores a mim e que se preocupam tanto com os animais? Onde estão as reclamações contra a justiça, que soltou esse sujeito depois da audiência de custódia? Por que não tem ninguém chamando esse cara de monstro? Por que não tem ninguém preocupado com a cadelinha, que ninguém nem sabe o nome? Onde está todo esse alarde como fizeram com o Orelha? Onde estão as milhares de postagens nas redes sociais para sinalizar virtude?

Talvez se ele fosse de uma família de alto padrão, que vivesse em um bairro nobre de um estado do sul e se fosse filho de um empresário e passasse férias na Disney, as pessoas estariam revoltadas... Mas como é um capiau que anda numa motinha muquirana de chinelo, em uma estradazinha de terra batida numa cidade de interior de um estado que metade da população brasileira não consegue achar no mapa... aí ninguém dá um pio.

Por isso que é inquestionável que se trata de uma questão que não tem nada a ver com maus tratos contra animais. A fúria da sociedade é inflamada porque os responsáveis por esse crime são "ricos", são pessoas que têm uma condição de vida que os coloca em um nível mais alto que a maioria da população. Fica "bem na fita" xingar esse tipo de pessoa, é legal torcer contra aquele que supostamente é mais forte, dá prazer ver alguém em uma situação melhor que a sua se fudendo. No fundo é assim que muita gente pensa, e é por essa razão que o caso do Orelha explodiu dessa forma, pois os violões da história fazem parte daquele grupo da sociedade que a maioria detesta.

Mas para não dar a impressão de que a motivação é social (o que poderia ser visto como uma atitude superficial e oportunista), nessas horas é necessário arrumar alguma desculpa, alguma causa nobre e irrefutável para legitimar a destilação de ódio que estão promovendo. Precisa posar de bonzinho, precisa dar a impressão que é uma manifestação digna. Aí então sinalizam virtude ao dizer que estão preocupados com maus tratos a animais, quando isso não passa de uma mera fachada para esconder o ódio contra uns moleques ricos que vivem em bairro chique e fizeram uma atrocidade. 

Se estou errado, explica então por que o caso do sujeito de moto lá de Rondônia passou despercebido. Não só esse, mas vários outros. E não venha aqui querer me contradizer citando uma notícia isolada em um portal de notícias (como a que referenciei, que quando vi não tinha nenhum comentário) ou postagem com meia dúzia de curtidas, que provavelmente só estão fazendo agora por causa do Orelha. A pergunta que ninguém quer responder é por que esses outros casos não "explodem" na sociedade, por que não geraram revolta por parte dos supostos defensores dos animais? Me convença que exista alguma outra razão plausível e legítima para uma reação tão diferente, que não seja a classe social dos agressores. 

A única coisa que me surpreende é como ainda não apareceu algum cretino tentando fazer uso político desse episódio. Ainda mais sendo adolescentes de Santa Catarina. Fico me perguntando quanto tempo falta para aparecer algum palhaço dizendo que eles são bolsonaristas...

E a hipocrisia dessas revoltadinhos só aumenta se a gente parar para observar as palavras de ordem dos supostos defensores dos animais, que defendem que os quatro adolescentes e seus pais são criminosos, que têm que ir pra cadeia.

Ah... agora eu tenho a certeza que vai ter gente pedindo minha cabeça também, depois do que vou falar agora.

Isso porque neste momento eu vou dizer algo que sei que vai incomodar, mas é a letra fria da lei (a mesma lei que é defendida em outras situações, como eu vou comentar) e não cabe questionamento. O fato é o seguinte: formalmente, os adolescentes não cometeram crime e não podem ser presos.

Vai lá... pode me xingar à vontade. Eu espero... 

...

...

...

...

...

Terminou? Quer um copinho d'água ou quer me xingar mais?

O que acontece é que podem me xingar, podem espernear à vontade, podem enfiar os dez dedos no rabo e se virar pelo avesso... e não mudará o fato de que os quatro adolescentes não cometeram nenhum crime e, portanto, não podem ir para a prisão. Sabe por quê? Pois eles são menores de idade...

Ora, afinal de contas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aquele que a turminha "do bem" tanto defende, estabelece que quando o autor do suposto crime é um adolescente, "considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal", e com isso "são penalmente inimputáveis os menores de 18 anos".

Não precisa acreditar em mim, cara-pálida. Vai lá, procura o ECA e veja você mesmo.

Pois é... como dizia o velho deitado da montanha: "o mundo não dá voltas, ele capota".

Porque é no mínimo curioso como tem muita gente "de bem" que hoje está pedindo a prisão dos quatro adolescentes, mas que não tem a mesma reação de revolta quando é um "di menor" do crime organizado que matou uma pessoa com um tiro de fuzil... De quebra, essas pessoas também costumam condenar qualquer iniciativa que tente promover a redução da maioridade penal, para que adolescentes sejam devidamente responsabilizados. Como querem que aconteça com os quatro do caso do Orelha.

Bem curioso como mudam de opinião tão rápido, não é mesmo?

Sempre quando esse tema de maioridade penal vem à tona, eu costumo lembrar do caso daquele filho da puta desgraçado do Champinha. Aquele demônio que, juntamente com seus comparsas, sequestrou um casal de adolescentes que estava acampando. Depois de matar o rapaz, a menina foi estuprada vários dias, das formas mais abjetas e desumanas que ninguém teria a coragem de imaginar, até matá-la. O cara sequestrou, torturou, violentou, estuprou e matou... mas foram só atos infracionários. Completou 18 anos com ficha limpa. E, de quebra, fizeram uma gambiarra jurídica para deixá-lo internado, talvez para garantir a sua segurança. 

O que é mais fascinante é ver que muita gente "de bem", que hoje chama os quatro adolescentes que espancaram o Orelha de "monstros", se recusou em usar o mesmo adjetivo lá atrás com o Champinha... teve gente até dizendo que ele era uma "vítima" da sociedade e que não podia ser responsabilizado pelos seus atos, por ser "di menor". Como dizem em diversos outros casos de crimes violentos cometidos por menores de idade que são integrantes do crime organizado.

Por que será?

A grande verdade é que a turminha "do bem" precisa decidir o que é que vai defender agora... Não dá para pedir redução da maioridade penal só para colocar em cana os quatro garotos que espancaram um cachorro, mas deixar de fora o "di menor" que mata a pessoa na rua pra roubar o celular. Na minha opinião tem que reduzir mesmo, não tem que ter essa calhordice de dizer que menor de idade não comete crime e não pode ser punido. Sério, ato infracional é o caralho.

Só que é como a lei funciona hoje. Então, meu amiguinho: se você estiver dizendo que os quatro adolescentes cometeram um crime, você está falando uma mentira. É fake news. Cuidado pro Xandão não te colocar no inquérito do fim do mundo... A menos que você consiga bancar mais de 3 milhões por mês pra contratar o escritório de advocacia da esposa dele.

Até o momento, somente aqueles três adultos (os pais de dois garotos e um tio) é que podem ser responsabilizados criminalmente, e por coação. Não tem essa bobagem também que muitos imbecis estão dizendo, que os pais devem ir pra cadeia para pagar pelo crime de seus filhos, já que o ECA os "protege".

E aí eu puxo um outro tema, já que o ministro "pica das galáxias" deu as caras por aqui. Podemos olhar também a questão jurídica do caso do Orelha, e outra situação que foi muito comentada nas redes pelos sinalizadores de virtude e que, na verdade, se enquadraria também como fake news

Como disse acima, inicialmente a juíza sorteada para analisar o episódio é amiga íntima da família de um dos garotos. Alguns dias após esse sorteio e antes da explosão midiática que começou no início dessa semana, ela se declarou impedida para julgar por conta de ser próxima da família de um dos réus. Sortearam outro juiz e o processo segue. Mas aí o pessoalzinho cheiroso e bonzinho que diz que defende os animais começou a espalhar que tinha sido uma manobra dela para tentar influenciar no julgamento. 

Por exemplo, uma que foi pras redes xingar a juíza foi aquela Luisa Mell, dizendo que ela é "amiguinha" das famílias, que permitiu que os dois adolescentes viajassem e alegando que sua suposta demora em se declarar suspeita para julgar teria atrapalhado o andamento do processo. De quebra, ainda assumiu para si a "vitória" de ter feito pressão para que a juíza deixasse o caso, que isso só aconteceu pois ela ficou em cima e foi vigilante.

Com todo o respeito, Luisa Mell... mas vá chupar um prego. Por mais que você supostamente faça um trabalho nobre pela causa dos animais, isso não te dá direito de ficar falando bobagem e espalhando mentiras.

Agora... tem aí um ponto muito interessante... Um ponto que mostra mais uma vez a seletividade da sociedade.

Vamos assumir por um momento que tenha sido isso mesmo, que teve mesmo alguma mumunha para "dar um jeito" para essa juíza assumir o caso da agressão contra o Orelha, e que ela tinha mesmo a intenção de influenciar no julgamento para favorecer os agressores. Ou seja, vamos considerar que a acusação e a revolta da Luisa Mell e de milhares de outras pessoas tenha fundamento. E graças à pressão de pessoas preocupadas com justiça, a juíza arregou e se declarou impedida, com medo da reação da sociedade.

Já que essa turminha "do bem" defende tanto a justiça... por que não vi mesma revolta popular diante de tantos outros casos de juízes agindo de forma suspeita e irregular? Por que é que não teve grita em outros episódios recentes onde magistrados estão julgando casos apresentados pelo escritório de advocacia de parentes ou de pessoas com quem mantém negócios?

Tipo quando o Toffoli viajou de jatinho particular para ver a final da Libertadores junto com aquele advogado Arruda Botelho, que está (ou estava) defendendo um dos investigados do caso do Banco Master, que só cresce a cada dia e provavelmente já é o maior escândalo de corrupção da história... E logo depois o "amigo do amigo do meu pai" puxou o inquérito para o STF (o que não faz sentido, pois nenhum dos acusados têm foro privilegiado para ir pro Supremo), para colocar sigilo na pôrra toda e controlar tudo, como mandar as provas serem arquivadas no STF e escolhendo a dedo quais seriam os peritos que as investigariam.

Onde estão os defensores da justiça? Cadê a turminha que exige a idoneidade e imparcialidade em julgamento? Explica pra mim porque só vemos críticas muito isoladas, geralmente de meios de comunicação independentes e de oposição ao governo, mas a sociedade em geral está calada diante disso? 

Será que a turminha que acusa a juíza de ter atrapalhado o processo e tentado favorecer os acusados, também acredita que Toffoli e Botelho só falaram de futebol na viagem? 

Tem que ser muito otário pra acreditar nisso... Bom, otário para acreditar que foi verdade ou filho da puta para defender essa lorota para proteger os amigos.

Isso mostra mais uma vez como que há uma indignação seletiva em diversos aspectos desse caso do cachorro Orelha. Pessoas tentam demonstrar uma revolta contra o que aconteceu, usando argumentos que parecem só valer nesse momento, mas que são facilmente esquecidos diante de outros casos que estão acontecendo por agora também. Isso só reforça ainda mais a ideia de que há alguma motivação oculta por trás dessa onde de comoção. Até acredito que tem gente que é inocente e não percebe, se deixando levar pela maioria, e mesmo alguns poucos que são sinceros e justos em suas reclamações; mas tem muita gente mal intencionada, se aproveitando de um caso que ganhou enorme relevância e com fortíssimo apelo emocional, e que na verdade quer emplacar pautas de interesse próprio.

E é assim que eu termino trazendo uma outra possível (e muito provável) motivação dissimulada por trás da grande repercussão que está sendo criada ao redor do Orelha. Basta você ver essa matéria do UOL (para depois não falarem que estou pegando notícia de site "bolsonarista"), focada em explicar o que é o tal do "zoosadismo", que seria um fenômeno global onde as pessoas fazem desafios e postam vídeos na Internet para mostrar violência contra animais, e como isso pode estar relacionado aos atos dos quatro adolescentes, e destacando a responsabilidade das plataformas digitais, que supostamente nada fazem para impedir a divulgação de vídeos de agressões e tortura contra os bichos.

Ah, moleque! Tava demorando aparecer alguém falando da tão cobiçada "regulamentação das redes sociais"... Em outras palavras: censura.

Eu acho sensacional como a turminha "do bem" progressista adora aproveitar qualquer oportunidade para soltar a ideia da regulamentação da Internet. Principalmente em um ano de eleições, onde é "muito importante" controlar bem o que a população pode ou não ler nas redes. Afinal de contas, nossa "democracia" pode ficar em risco se certas verdades forem ditas, e precisa ter alguém para controlar o que pode e não pode ser falado ou mostrado. Não dá para, por exemplo, resgatar um vídeo do Lula dizendo que é contra sigilo de documentos do governo, mesmo sabendo que ele colocou sigilo nas suas viagens. Também não dá para lembrar como que ele sempre foi amiguinho do Maduro, que agora está apodrecendo na cadeia. Tem muitas verdades que não dá para serem públicas, algo tem que ser feito para controlar o acesso à informação. Ou seja, censura; mas é em nome da "democracia"...

E para justificar esse controle, nada melhor do que usar uma causa que seria incontestável. No caso, a defesa dos animais, usando um episódio que está na cabeça da população. Ora, quem iria ser contra uma lei que venha a propor uma regulamentação das redes sociais para supostamente combater a violência contra os animais? Principalmente se chamarem, sei lá... de "lei Orelha", já imaginou?  

Perceba que é exatamente como aconteceu recentemente, quando aquele pústula escroto do Felca, que mais parece um dedão do pé, apareceu para falar das criancinhas, lembra? 

Veja como é a mesma tática, em trazer um tema de grande apelo emocional que dificilmente alguém ficará contra, como defesa das crianças e agora dos animais. Aí inventam um termo novo para denominar o problema: da mesma forma que lá atrás surgiu o "adultificação", agora é o "zoosadismo", pois criando uma definição gera uma espécie de legitimidade no discurso, não vai demorar para aparecer algum "especialista" para explicar a definição. Sem falar que faz parte da estratégia de guerra cultural de controlar as palavras e os seus significados. E concluem defendendo a ideia de que tais atos condenáveis devem ser prevenidos, e para isso destacando que é fundamental criar alguma entidade que vá monitorar e identificar conteúdos nas redes sociais que promovam esse tipo de crime, como se fossem o único lugar onde abuso de menores e violência contra animais ocorre.  

É muito descarado. Afinal de contas, cria-se uma situação em que existiria uma entidade, logicamente associada àqueles que estão no poder, que iria tomar para si a responsabilidade de monitorar as redes para localizar conteúdos que incentivem violência contra os animais, usando meios para apagar esses conteúdos e até mesmo responsabilizar criminalmente quem os divulga. E em um país politicamente polarizado, onde essa regulamentação será imposta por um dos lados... é lógico que ela será usada como arma para calar os adversários. 

Tudo é simples: se alguém falar que o Lula lá atrás prometeu picanha, vai aparecer algum merda tipo do Sleeping Giants dizendo que é isso é maus tratos contra os animais, e as postagens vão ser apagadas. Até chegarmos em uma situação onde não será permitido lembrar essa fala dele... e com isso, é um pulo para dizer que ele nunca prometeu picanha pro pobre. Viu como é simples?

Como eu disse: nada é por acaso, não tem essa história de coincidência. Toda essa repercussão explosiva pelo triste caso do Orelha no fundo não tem nada a ver com maus tratos contra animais. Trata-se apenas de revolta seletiva de uma porção de gente que só quer sinalizar virtude mas não se preocupa de fato com esse problema, juntamente com outro montão de canalhas que quer se aproveitar da grande evidência desse episódio para colocar em prática seus planos de poder.

É inquestionável que esse episódio com o pobre Orelha foi muito triste, e não duvido que tenham pessoas que realmente estejam sensibilizadas com isso de verdade, que de fato fazem a sua parte para reduzir os maus tratos e ajudar entidades que cuidam dos animais. Também não restam dúvidas que os quatro adolescentes devem ser punidos de forma exemplar. Como também deve ser feito com qualquer um que maltrate animais, independente da sua classe social. É um crime covarde que deve ser combatido e erradicado. 

Mas é lamentável saber que esse sentimento de revolta pelo Orelha não é sincero na maioria das pessoas... Isso tem que ser dito, goste ou não. É lastimável que tenha muita gente fazendo barulho só porque todo mundo está fazendo, que só estejam mais preocupados em registrar que não toleram maus tratos, mas que não fazem nada de efetivo contra isso. Como acontece em muitos outros episódios tristes e doloridos, em que muita gente só quer mesmo é sinalizar virtude para ganhar curtidas nas redes sociais. Isso não está certo, mesmo que alguém possa achar que tal postura seja inofensiva, ela apenas enfraquece o combate contra as verdadeiras causas desse triste problema. Se a sociedade só vai se pronunciar contra maus tratos contra animais somente nos casos que se tornam virais... então não vai adiantar, vai continuar tendo muitos outros passando despercebidos.

E é nojento e repulsivo ver que também tem o lado oportunista nessa história. Tem vários canalhas que estão pensando somente em seus próprios interesses, e tentam se aproveitar de um caso que chamou a atenção para capitalizar sua agenda pessoal. Uma postura deplorável e covarde tomada por verdadeiros filhos das putas, que se aproveitam e enganam pessoas ignorantes e ingênuas. Com esses, não é apenas um simples problema de sinalização de virtude; é a mais pura hipocrisia, uma falsidade sem vergonha. Aqueles que se aproveitam do caso do Orelha para enganar as pessoas e impor seus interesses são tão criminosos como os adolescentes que o espancaram. Que esses cretinos sejam expostos como os aproveitadores oportunistas que são e paguem por isso.

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