quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Navios de Guerra - Mogami

Voltamos aqui com as postagens de navios, fico até surpreso como elas estão tendo uma boa repercussão. Acho legal mudar um pouco os ares (ou seria mudar os mares?) aqui e tentar um tema um pouco mais sério, escrever sobre fatos históricos, que é algo que acredito que gere menos problemas. 

Porém, uma coisa eu tenho percebido aqui nessas postagens: acho que elas ficaram um pouco sérias demais! Até tento arrancar uma piadinha ou outra, mas o nível de zoação sem dúvida está longe das sátiras de filmes. Por essa razão, decidi dessa vez escolher este singelo cruzador japonês chamado Mogami, pois creio que aqui terei mais espaço para as piadas. 


Isso porque o Mogami provavelmente pode ser considerado como um dos navios mais desastrados e azarados que eu já vi!

Bom, mas vamos começar com os fatos da origem desse cruzador. Em uma marinha, geralmente os cruzadores representam aquela classe de navios com um bom equilíbrio entre poder de fogo e velocidade: não eram velozes e ágeis como um destróier, tampouco eram parrudos e carregavam armamento pesado como um encouraçado. E nas décadas de 20 e 30 o Japão estava colocando ao mar uma série desses navios, sendo que cada classe tentava ser uma melhoria em relação à anterior. 

Só pra encher de nomes japoneses engraçados, eles começaram com a classe Furutaka, incluindo seu irmão Kako (que não tinha nenhum parentesco com o Caco dos Muppets), sendo seguida por uma classe muito semelhante da qual participava o Aoba e o Kinugasa (que também não é da família do Oliver Tsubasa, dos Super Campeões). Veio depois os primeiros cruzadores que passaram do limite daquele Tratado de Washington que eu sempre falo, a classe Myoko com seus irmãos Nachi, Haguro e Ashigara; e depois veio a classe Takao, com cruzadores pesados muito bem blindados, da qual faziam parte também os seus irmãos Atago, Chokai e Maya. 


Sim, esses nomes japones eram bem engraçados mesmo...

Enfim, a classe que viria depois seria justamente a do tal Mogami sobre quem eu falo nesse post, lançada na segunda metade da década de 30. Teoricamente eram para ser navios melhorados em relação aos seus predecessores, mas que depois se mostraram como grandes fracassos de projeto. Mostrando que japonês, quando quer, também consegue fazer merda. Tanto que houve depois uma classe adicional que tentou corrigir essa lambança, com os cruzadores Tone e Chikuma.

Algumas teorias sobre esse projeto ruim comentam que a classe era originalmente para ser de cruzadores leves. De fato, no plano original eles deveriam levar canhões de 6.1 polegadas (algo como 155 mm), e no meio do caminho decidiram transformá-los em cruzadores pesados, partindo para canhões de 8 polegadas (ou 203 mm). Além disso, foram implementadas várias inovações na época, como uso de alumínio e um tipo de solda diferente. Resultou que os navios nasceram com muita instabilidade, e com uma série de defeitos.


Acontece que se por um lado os japoneses fizeram uma cagada de projeto original, eles conseguiram fazer uma recauchutagem nos navios em 1939, conseguindo assim corrigir alguns de seus problemas. Melhoraram a estabilidade, refizeram as soldas mal-feitas e colocaram os canhões mais possantes. Embora muitos considerem que a classe Takao anterior ainda como superior, os Mogamis eram navios bons, velozes e que prometiam contribuir na guerra que estava para começar.

Comentando sobre suas características depois dessa reforma, o cruzador tinha 200 metros de comprimento, pesando 10 mil toneladas quando carregado. Conseguia fazer impressionantes 37 nós, equivalente a 70 quilômetros por hora, rápido para um cruzador pesado. Seu armamento definitivo era composto por 10 canhões de 8 polegadas, dispostos em torres duplas, sendo três na frente e duas atrás, além dos diversos canhões de menor calibre e os anti-aéreos. 

Faltou apresentar os nomes das crianças. Além do Mogami, tinha o Mikuma, o Suzuya e o Kumano. Os três primeiros foram lançados em 1934 e o último em 1936.


Aqui eu não vou dedicar muito tempo a contar da carreira deles... Até para não me alongar muito, mas pelo fato de que eles não tiveram nada de muito marcante, fora as lambanças do Mogami que comento mais adiante. Os quatro faziam parte da Divisão 7 de cruzadores, seguindo uma constante mania que os japoneses tinham de colocar todos os navios de uma mesma classe juntos em um mesmo grupo. No início da guerra, em alguns momentos eles se separaram, geralmente o Mogami pareando com o Mikuma e o Kumano acompanhando o Suzuya, e participaram de algumas campanhas no Oeste do Pacífico, chegando até o Índico. A mais expressiva foi a Batalha no Estreito de Sunda, onde o Mogami e o Mikuma afundaram alguns cruzadores americanos e australianos.

E, apenas como comentário paralelo, o Estreito de Sunda não tem nada a ver com o saudoso Bussunda.


Já nesse momento, o nosso amigo Mogami começou a sua fama de desastrado. Nesta batalha, o Mogami e o Mikuma estavam acompanhados de alguns destróieres, ajudando no desembarque nas ilhas da região, até que um navio japonês identificou dois cruzadores aliados, o norte-americano Houston e o australiano Perth. Possivelmente em um momento de afobação, o Mogami disparou seis torpedos contra o navio americano, conseguindo a façanha de acertar cinco deles!

Só que... os cinco na verdade atingiram navios japoneses...


Cacetada! Não sei dizer se o navio americano conseguiu se desviar, ou o cara que atirou era zarolho. Mas o fato é que os torpedos erraram feio e foram atingir um grupo de navios que estava indo para o desembarque, lá longe. Um navio caça-minas e quatro transportes de tropas foram afundados sem misericórdia. Os torpedos japoneses tinham a fama de terem um longo alcance, e foi tanto que pegaram os coitados que não tinham nada a ver com a história...

O pior de tudo é que naquele momento, foram culpar um destróier japonês pelo incidente! Mas descobriram depois que o estrago havia sido causado por torpedos maiores, transportados por um cruzador, e baseado no horário do afundamento, estava claro que os inocentes navios haviam sido vítimas de fogo amigo vindo do Mogami.


Ou seja, além de desastrado, ainda foi um filho da puta, ao tentar culpar outro navio! Sacanagem!

Pois muito bem... Não demorou muito para que o Mogami viesse a chamar atenção com alguma lambança. Alguns meses mais tarde, ele e seus irmãos viriam a participar da Batalha de Midway, sobre a qual eu comentei quando escrevi sobre o Enterprise. Eles faziam parte de um grupo de escolta de navios de transporte, com o objetivo de fazer o desembarque. Fico imaginando se os caras nos transportes não estavam preocupados de serem torpedeados pelo Mogami por engano...

No final da batalha eles estavam ali se aproximando de Midway, até que em um dado momento, deram a ordem de pisar no acelerador para se aproximar da ilha. Só que logo depois desistiram da idéia, provavelmente porque naquela altura os japoneses já tinham perdido todos os seus porta-aviões e era hora de meter o galho dentro e bater em retirada. Acontece que, por algum motivo, os quatro cruzadores só se deram conta dessa ordem algumas horas depois, deixando para trás os transportes e seus destróieres de escolta que já tinham dado meia-volta. Eles estavam vindo tão alucinados que chegaram a poucos quilômetros da ilha.

E por ali tinha um velho submarino americano esperando...


Os navios estavam seguindo em fila, liderados pelo Kumano, que avistou o submarino na superfície. Vendo que estavam ali como uma presa fácil, foi dada uma ordem para todos eles virarem para bombordo... que na linguagem dos marujos significa virar para a esquerda. A idéia era se desviar de possíveis torpedos que o submarino yankee poderia ter lançado. Algo que na verdade não aconteceu, ele estava ali na dele, apreciando a paisagem, e aparentemente só veio a perceber os japoneses muito depois.

Aí é que começou a cagada. A ordem vinda do Kumano era para fazer uma curva de 45° para a esquerda, seguida de forma correta pelo Suzuya, que vinha logo atrás. Só que o Mikuma, terceiro navio na fileira, entendeu que era pra fazer uma curva de 90°. Talvez o cara do rádio tinha tomado muito saquê e entendeu a ordem errada, ou então o navegador tinha dificuldades para trabalhar com ângulos. Enquanto isso, o Mogami, que vinha na retaguarda, seguiu a ordem correta, virando para a esquerda apenas 45°.

Bom, pra facilitar, veja esse esquema que eu fiz, que mostra o ocorrido.


Ou seja: o imbecil do Mikuma virou demais e assim ficou na trajetória do Mogami. E já dá para imaginar o que aconteceu...

Eu não sei... Tudo bem que estava escuro, era de madrugada na hora do incidente, e os navios estavam seguindo quase na sua velocidade máxima de 70 quilômetros por hora. Assim, não tinha muito como não acontecer o acidente, em que o Mogami acertou em cheio o meio do seu irmão Mikuma. A foto aí de baixo é do Mogami, a caminho do Japão depois dessa porrada, em que dá pra ver a frente toda amassada.


Mas... puta merda! Tudo bem que eles estavam rápidos, mas estamos falando de navios, grandes pra burro. Não é como se os quatro estivessem num racha estilo Velozes e Furiosos, acho que daria tempo para eles perceberem a merda e desviarem. Além disso, como é que ninguém no Mogami enxergou que tinha um navio ali no caminho? Carambolas, os caras conseguem enxergar um submarino pequenininho, mas não vêem um cruzador ali perto? Enfim... Dizem que no Mogami também fizeram cagada, pois ao fazer a curva eles viram um navio distante, pensando que era o Mikuma que ia logo adiante, mas na verdade era o Suzuya, que tava na dele fazendo a curva corretamente lá longe, e por isso acharam que tava tudo sussa.

Na verdade, as manobras foram feitas tão no desespero, que quase a mesma coisa aconteceu com o Kumano e o Suzuya. Pelo mapa abaixo, mais realista que a piadinha que fiz, dá pra perceber (os números indicam a hora da posição de cada navio). Clique pra ampliar, a não ser que você tenha visão microscópica.


Depois da pancada, o Mikuma ficou todo arrebentado na lateral, mas ainda estava relativamente inteiro apesar de estar vazando que nem um balde furado, já que era uma região relativamente blindada. Enquanto que o Mogami levou a pior e destruiu sua frente inteira, que foi amassada quase até chegar na primeira torre de canhões. Seus outros irmãos deram no pé, deixando os dois navios danificados para trás, acompanhados por dois destróieres. Cabe ressaltar que o Mikuma, apesar de avariado, estava em melhor estado, mas ficou para trás para acompanhar o danificado Mogami.

Talvez por solidariedade ao seu irmão ferido... ou por remorso por ter sido culpado pela barbeiragem.

O Mikuma e o Mogami seguiram vagarosamente, e então sofreram sucessivos ataques da força aérea norte-americana. O mais irônico é que o Mogami, por mais arrebentado que estivesse e mesmo tendo levado seis bombas, conseguiu escapar. O Mikuma, por sua vez, não teve a mesma sorte: as bombas causaram um estrago maior e ele foi praticamente destruído, principalmente depois que seus torpedos explodiram. Pouco depois, ele acabou afundando.


Tudo bem que o Mikuma foi quem fez a merda, ao errar a curva... Mas o Mogami também foi desastrado ao porrá-lo daquele jeito. E saiu de fininho...

O Mogami voltou para o Japão para reparos, depois da trapalhada em Midway. E naquele momento os japas tentaram uma iniciativa meio louca para compensar a massiva perda de porta-aviões que eles haviam sofrido, que era converter navios para o transporte de aeronaves. Fizeram isso com dois encouraçados, e aparentemente pensaram em dar o mesmo destino para o Mogami, já que ele estava todo arrebentado. Assim, toda a sua traseira foi recauchutada, tipo o que fizeram com a Kim Kardashian. Os canhões posteriores foram removidos e fizeram uma pequena pista de pouso, para que ele pudesse lançar aviões. Virou assim um cruzador-porta-aviões, carregando onze hidro-aviões de reconhecimento.


Ou seja, não fazia bem nem uma coisa nem outra! Reduziram o seu poder de fogo para levar um punhado insignificante de aviões, iguais a que todos os outros navios levavam para fazer o reconhecimento da área. Teria sido melhor limpar todo o convés, botar uma pista de pouso completa e transformá-lo em um porta-aviões de verdade. Talvez faltou verba... ou talvez os japoneses estavam querendo inventar moda com o conceito de cruzador-porta-aviões.

A conversão foi concluída em abril de 1943. E um mês depois ele vai lá e me faz outra cagada...


Sério, pode parecer piada, mas logo depois de ter voltado à ativa, o Mogami acabou batendo em um petroleiro, enquanto manobrava na baía de Tóquio. Diferente de Midway, em que eles estavam ali em uma zona de guerra, esse acidente foi como bater o carro na garagem de casa, verdadeira estupidez... Por sorte, os danos foram leves, acredito que esse navio em que ele bateu estava vazio. Pouco se fala sobre esse incidente, sobre de que foi a culpa... mas imagino que tenha sido do Mogami.

Ou no mínimo ele era um baita dum pé-frio! Parece que ele estava cheio de urucubaca, azarado pra caramba! Imagino que sim, pois um mês depois de bater no petroleiro, ele estava certo dia ancorado ao lado do couraçado Mutsu, quando este inexplicavelmente explodiu pelos ares, em um dos maiores mistérios da história naval.


Mas eu aposto que foi culpa do azarado do Mogami também!

E alguns anos mais tarde, o desastrado cruzador japonês viria a passar por outra situação tosca e bizarra, dessa vez na Batalha do Golfo de Leyte, sobre a qual falei na postagem do Yamato. Mais especificamente, ele participou do combate conhecido como Batalha do Estreito de Surigao. Ele estava em uma força liderada por dois velhos couraçados, que foram ferozmente atacados por destróieres e lanchas torpedeiras norte-americanas. Os grandões se deram mal, mas o Mogami saiu ileso, o que pra mim só contribui para sua fama de azarado (para os outros). Acontece que logo chegaram alguns cruzadores inimigos que mandaram bala, destruindo boa parte de sua estrutura e armamentos. Todo arrebentado, o Mogami deu meia-volta e bateu em retirada para o sul.


Bom... mas tinha uma força de cruzadores japoneses, que havia ficado um pouco para trás, e que seguia a todo vapor para o norte.

Eu acho que você já adivinhou o que deve ter acontecido, né?


Realmente é difícil acreditar que o mesmo navio se envolveu em dois incidentes desse tipo durante combate, mas é verdade. O Mogami foi atingido de lado pelo cruzador pesado Nachi, que ficou com sua proa danificada. O pé-frio levou a pior dessa vez, pois o choque fez com que cinco torpedos explodissem, o que estraçalhou o navio ainda mais, destruindo um de seus dois motores. Mas o filho da puta ainda ficou inteiro. Como diz o velho ditado, vaso ruim não quebra fácil!

Todo estropiado, ele continuou a sua fuga vagarosa para o sul, até ser encontrado pela mesma esquadra de cruzadores onde estava o Nachi, que também estava se mandando dali. Um destróier foi escalado para a ingrata missão de escoltar o Mogami, que foi atacado pelos canhões de cruzadores americanos, mas que conseguiram a proeza de não causar nenhum estrago nele. Parecia que o pobre e azarado cruzador ia fugir de novo...


Só que não seria dessa vez, já que algumas horas mais tarde o outro motor pifou, e assim ele ficou totalmente sem propulsão, um alvo fácil para aviões americanos, que mesmo atingindo ele algumas vezes, não conseguiram mandar o Mogami para o fundo. Parece que nessa hora os norte-americanos jogaram a toalha, estavam gastando muito suor pra acabar com um monte de sucata flutuante que não iria para lugar nenhum.

Enfim... e assim terminou a saga do navio mais azarado da história. Largado ali no oceano, sem nenhuma chance de ser recuperado, o destróier que o acompanhava deu o tiro de misericórdia, afundando-o com um torpedo. Fim da linha pro Mogami, que pôde assim descansar no fundo do mar.


Impressionante como um navio conseguiu ter uma história tão desastrosa como ele. Além do incidente onde atirou em navios amigos, ele conseguiu a proeza de se chocar nem uma nem duas, mas três vezes com outras embarcações aliadas. Tudo bem que colisões assim podiam acontecer, ainda mais no calor da batalha ou por ajuda de mau tempo... Mas três vezes, é demais, pombas!

Apenas para não deixar a história da família incompleta, os demais navios da família não duraram muito. O Suzuya acabou sendo afundado no mesmo dia em que o Mogami foi sacrificado, na Batalha do Mar de Samar, depois de ataques aéreos que causaram a explosão de alguns de seus torpedos. Por sua vez, o Kumano sobreviveu a essa série de combates, apesar de ter perdido parte da proa por conta de um torpedo certeiro. Algumas semanas depois, ele foi atacado por submarinos norte-americanos enquanto escoltava um comboio, levando dois torpedos. Conseguiu ser rebocado para um porto, mas acabou afundado por ataques de porta-aviões enquanto estava sendo reparado.

Curioso, não? Repito, é uma das razões pelas quais eu sempre me interessei pela história de navios, pois cada um possui a sua bibliografia, seus feitos e, no caso do Mogami, seus muitos desfeitos. O pior é que ele não é um dos mais azarados, outro dia eu volto aqui pra contar as loucuras de outro navio, que não foi exatamente o mais azarado, mas que fez muita merda pelos cantos.

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